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LIVE #168 - Introdução à Fenomenologia

Nesta introdução à fenomenologia, Mateus Salvadori apresenta a escola fundada por Edmund Husserl como uma forma rigorosa de investigar a experiência vivida e o modo como as coisas aparecem à consciência. A aula distingue a fenomenologia husserliana de usos anteriores do termo em Kant e Hegel, situa sua influência sobre Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty e Edith Stein e explica suas críticas ao naturalismo positivista e ao psicologismo lógico. Com exemplos de memória, medo, audição e um exercício de tirar os óculos ou desfocar a visão, a exposição mostra que a fenomenologia não abandona o mundo objetivo, mas investiga a relação entre sujeito, objeto e modo de aparecimento, destacando conceitos como fenômeno, intencionalidade, perspectiva, sentido e experiência vivida.

01:09:05•Ciência
Mateus Salvadori
PALESTRANTE PRINCIPAL

Quem é Mateus Salvadori?

Professor, escritor e pesquisador em Filosofia

Mateus Salvadori é professor da Universidade de Caxias do Sul, escritor e pesquisador em Ética, Filosofia do Direito e Filosofia Política. Também atua na divulgação filosófica por meio de conteúdos digitais.

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TERMOS ESSENCIAIS

Vocabulário para compreensão

Fenômeno

Aquilo que aparece à consciência tal como se mostra a alguém. Na aula, o termo designa o objeto conforme é percebido, por exemplo, de modo nítido ou desfocado.

Intencionalidade

Característica pela qual a consciência é sempre dirigida a algo: percebe algo, lembra algo ou deseja algo. Não significa agir com propósito, mas ter um objeto ou conteúdo ao qual a consciência se refere.

Positivismo

Perspectiva que privilegia os fatos observáveis, a medição e os métodos das ciências naturais. Na conversa, aparece associado ao naturalismo criticado por tentar aplicar esse modelo integralmente ao estudo humano.

Psicologismo

Tentativa de fundamentar leis lógicas no funcionamento da mente humana. É apresentado como a posição que reduz a validade da lógica a processos psicológicos.

Ciências do espírito

Nome usado no século XIX para campos hoje próximos às ciências humanas e sociais. O termo surge no debate sobre se tais áreas deveriam usar o mesmo método das ciências naturais.

Método indutivista

Método que parte da observação e de casos empíricos para formular conclusões gerais. Na aula, caracteriza o modelo experimental das ciências naturais que não bastaria para esgotar o estudo da vida humana.

Experiência perceptiva

Modo pelo qual algo é percebido por alguém, e não apenas o objeto percebido isoladamente. O exercício dos óculos mostra que o mesmo objeto pode aparecer de formas diferentes.

Rede de significados

Conjunto de relações de sentido em que um objeto aparece. Um livro, por exemplo, remete a leitura, autor e estudo, em vez de se apresentar apenas como cor e forma.

Validade lógica

Propriedade de uma conclusão ou lei lógica que não depende de quem a pensa nem de seus acertos psicológicos. A aula usa exemplos matemáticos e silogísticos para distingui-la do funcionamento mental.

Mundo fenomênico

Expressão kantiana para o mundo tal como aparece à experiência. É mencionada para diferenciar usos anteriores de “fenômeno” da escola fenomenológica do século XX.

SÍNTESE DA CONVERSA

Principais ideias

A fenomenologia é uma escola do século XX, não apenas uma palavra antiga

Embora os termos fenômeno e fenomenologia já aparecessem em autores como Kant e Hegel, a fenomenologia tratada na aula é a escola filosófica constituída por Husserl na passagem ao século XX.

O método descreve modos de aparecimento

A fenomenologia investiga diferenças entre perceber uma pessoa presente, lembrar dela ou imaginar uma possibilidade, perguntando como algo se apresenta à consciência.

Husserl critica a redução naturalista da consciência

A aula apresenta o naturalismo positivista como tentativa de explicar inteiramente a consciência com o modelo das ciências naturais; para Husserl, essa abordagem não esgota a experiência humana.

Lógica não se reduz à psicologia

Contra o psicologismo, Husserl distingue a investigação psicológica de como pensamos da investigação lógica sobre a validade de razões e conclusões.

A experiência vivida tem sentido próprio

O medo, por exemplo, pode envolver batimentos cardíacos e processos cerebrais, mas a fenomenologia pergunta também como ele é vivido, o que aparece como ameaça e como transforma a percepção e a ação.

A consciência é sempre consciência de algo

A intencionalidade indica que perceber, lembrar e desejar são sempre atos dirigidos a algo; a consciência não é uma interioridade vazia e isolada.

A percepção relaciona sujeito, objeto e perspectiva

O exercício com óculos mostra que o objeto pode permanecer o mesmo enquanto muda o modo como aparece, deslocando a atenção para a relação perceptiva.

Capítulos do vídeo

Livros, cursos e referências

Citado no vídeo · Livro

As palavras e as coisas

Michel Foucault

Mencionado ao comentar a frase de Foucault sobre o ser humano como invenção recente no contexto das ciências humanas.

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Citado no vídeo · Livro

Fenomenologia

David R. Cerbone

Apresentado como referência e base para o exercício sobre percepção e para as próximas aulas.

Citado no vídeo · Curso

Filosofia 360°

Curso completo de filosofia apresentado como espaço que reúne as aulas semanais e materiais de apoio.

Citado no vídeo · Livro

Investigações Lógicas

Edmund Husserl

Mencionada como obra importante para o início da fenomenologia, publicada em 1900 e 1901.

Capa de O Ser e o Nada
Citado no vídeo · Livro

O Ser e o Nada

Jean-Paul Sartre

Mencionado como obra cuja compreensão exige uma base em fenomenologia, segundo o apresentador.

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Citado no vídeo · Livro

Ser e Tempo

Martin Heidegger

Mencionado ao explicar que Heidegger aplica o método fenomenológico à existência humana.

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Trechos marcantes

Mateus Salvadori — “A consciência é consciência de algo. A consciência é consciência de alguma coisa.”

Mateus Salvadori — “Quando eu percebo, eu percebo algo. Quando eu lembro, eu lembro de algo. Quando eu desejo, eu desejo algo.”

Depois de comparar imagens nítidas e borradas e explicar que a fenomenologia investiga a relação entre quem percebe e o que é percebido, o professor nomeia essa característica como intencionalidade. Ele esclarece ainda uma possível confusão: aqui, intencionalidade não é fazer algo de propósito.

Mateus Salvadori — “Eu não vou reduzir eu diante de um leão ou que recém fui assaltado aos batimentos cardíacos e aos processos cerebrais.”

Mateus Salvadori — “Como eu vivo esse medo? O que eu percebo como ameaçador?”

O exemplo surge durante uma crítica ao uso exclusivo do método das ciências naturais para estudar a experiência humana. O professor reconhece que batimentos cardíacos e processos cerebrais podem ser estudados, mas contrapõe a eles perguntas sobre um medo vivido após um assalto ou diante de um leão: o que aparece como ameaça e como isso muda a percepção e a ação.

Mateus Salvadori — “O objeto na tua frente continua o mesmo daquilo que tu tá olhando, mas o modo como ele aparece muda.”

Mateus Salvadori — “O objeto é o mesmo, a coisa observada é a mesma. O que muda é como tu percebe.”

Após reconhecer que a primeira parte da aula foi densa, o professor propõe um teste imediato: quem usa óculos deve tirá-los; quem não usa deve apertar os olhos e tentar ler. A mudança na nitidez do texto evidencia que o objeto permanece, enquanto a experiência perceptiva se altera.

Mateus Salvadori — “Quando olhamos para um livro, por exemplo, não vemos simplesmente cores e formas. Vemos um livro.”

Mateus Salvadori — “As coisas aparecem em uma rede de relações e significados.”

Logo depois de definir intencionalidade, o professor desloca a discussão para objetos da casa. Um livro pode remeter a autor, leitura e estudo; um prato pode remeter a comida, limpeza, lavar louça e pessoas jantando juntas. Esses exemplos concretos mostram que a percepção não se limita a cor e forma.
ARTIGO SOBRE O VÍDEO

Resumo completo

A aula apresenta uma introdução panorâmica à fenomenologia, pensada como preparação para encontros posteriores sobre Husserl, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty e outros autores. Mateus Salvadori começa situando a fenomenologia entre as grandes escolas filosóficas do século XX, ao lado de correntes como existencialismo, hermenêutica, teoria crítica e filosofia da linguagem. Ele ressalta que a palavra "fenomenologia" já existia antes de Husserl: Kant tratava da distinção entre fenômeno e númeno, e Hegel escreveu a Fenomenologia do Espírito. Porém, a fenomenologia discutida na aula é a escola filosófica constituída por Edmund Husserl na passagem do século XIX ao XX, tendo Investigações Lógicas como obra decisiva em seu início. A proposta central da fenomenologia é descrever cuidadosamente experiências tais como perceber um objeto, lembrar de alguém ou imaginar uma possibilidade. Para tornar isso concreto, a aula compara duas situações: ver uma pessoa diante de si e recordar essa mesma pessoa em outro momento. Nos dois casos, a consciência se dirige à mesma pessoa, mas ela se apresenta de formas diferentes: em um caso é percebida, no outro é lembrada. O método fenomenológico, portanto, procura investigar as diferentes maneiras pelas quais algo se manifesta à consciência. O professor também apresenta a fenomenologia como base metodológica para autores posteriores. Heidegger é caracterizado como fenomenólogo existencial, pois aplica a fenomenologia à existência humana; Sartre é associado à consciência e à liberdade, com seu existencialismo sendo apresentado como produto de uma formação fenomenológica; Merleau-Ponty é relacionado à investigação do corpo e da percepção; e Edith Stein, à empatia. A ideia é que o método pode ser aplicado a diferentes campos de experiência, sem que todos os autores cheguem às mesmas conclusões. A segunda parte decisiva da aula expõe as críticas husserlianas ao naturalismo e ao psicologismo. O naturalismo criticado é associado ao positivismo e à tendência de estudar a consciência como um fenômeno da natureza, usando para isso o modelo de física, química e biologia. Salvadori contextualiza essa posição no século XIX, quando as ciências humanas e sociais buscavam métodos próprios e frequentemente importavam o modelo das ciências naturais. Segundo a interpretação apresentada, Husserl questiona se esse modelo é suficiente para compreender a experiência vivida e explicar como o conhecimento é possível. A fenomenologia não nega processos naturais, observações ou experimentos, mas recusa que eles esgotem a experiência humana. O psicologismo, por sua vez, é apresentado especificamente no campo da lógica. Ele procura fundamentar as leis lógicas no funcionamento da mente humana. Husserl o critica distinguindo psicologia e lógica: a psicologia pode estudar como pensamos e erramos; a lógica investiga se uma conclusão decorre das razões dadas. Assim, a validade de "dois mais dois são quatro" ou de uma inferência lógica não dependeria de alguém acertar ou errar uma conta. A aula usa essa distinção para mostrar que a validade lógica não se reduz a processos psicológicos individuais. Para explicar a diferença entre uma análise naturalista e uma fenomenológica, a aula recorre ao medo. É possível estudar batimentos cardíacos e processos cerebrais relacionados ao medo, mas também é possível perguntar como alguém vive esse medo, o que percebe como ameaçador e como a situação modifica seu ambiente e sua ação. A fenomenologia se concentra nessa segunda dimensão: a experiência vivida e seu sentido. O mesmo contraste é retomado com a audição de música: uma investigação naturalista pode descrever ondas sonoras, ouvido e sistema nervoso; uma investigação fenomenológica pergunta como uma melodia aparece para quem a escuta, como sequência significativa de notas em determinado contexto. Na parte prática, Salvadori utiliza um exercício inspirado no livro Fenomenologia, de David R. Cerbone. Quem usa óculos é convidado a tirá-los e tentar ler; quem não usa é convidado a apertar os olhos. O objeto observado permanece o mesmo, mas muda o modo como aparece: nítido, borrado, parcialmente distinguível. Esse exemplo introduz a noção de fenômeno como aquilo que aparece tal como aparece para nós. A fenomenologia desloca a atenção: em vez de perguntar apenas "o que estou vendo?", pergunta também "como aquilo que vejo aparece para mim?". O exercício conduz à ideia de que a fenomenologia não elimina nem o objeto nem o sujeito, mas estuda a relação entre quem percebe, aquilo que é percebido e o modo de aparecimento. A percepção é ainda apresentada como perspectival e corporal: nunca vemos todos os lados de um livro de uma vez, podemos mudar de posição, aproximar ou afastar o objeto. Além disso, os objetos aparecem em redes de significado. Um livro não é percebido como mera combinação de formas e cores, mas como algo ligado à leitura, ao autor e ao estudo; um prato pode remeter a comida, limpeza e convivência. Por fim, a aula introduz a intencionalidade, resumida na formulação de que a consciência é sempre consciência de algo. Ver é ver algo, lembrar é lembrar algo, desejar é desejar algo. A fenomenologia, assim, não se limita a investigar conteúdos internos da mente, mas investiga a orientação da consciência para o mundo e a maneira significativa pela qual o mundo se apresenta. A conclusão retoma a oposição ao naturalismo: explicar processos naturais envolvidos numa experiência é diferente de descrever como ela é vivida. A referência principal indicada é o livro de Cerbone, e a próxima aula é anunciada como dedicada ao pensamento de Husserl.

Perguntas sobre esta conversa

O que é fenomenologia segundo a aula?

É uma escola filosófica fundada por Edmund Husserl que investiga rigorosamente como as coisas aparecem à consciência na experiência vivida, em atos como perceber, lembrar, imaginar e desejar.

Qual a diferença entre fenômeno e objeto na fenomenologia?

O objeto é aquilo que é percebido; o fenômeno é o objeto tal como aparece para alguém em determinada experiência. O mesmo objeto pode aparecer de modos diversos, por exemplo, nítido ou desfocado.

O que significa intencionalidade?

Intencionalidade é a característica de a consciência estar sempre dirigida a algo. Quando percebemos, percebemos algo; quando lembramos, lembramos de algo; quando desejamos, desejamos algo.

Qual é a crítica de Husserl ao naturalismo?

Husserl questiona a pretensão de explicar integralmente a consciência e a experiência humana pelos métodos das ciências naturais, como se elas pudessem ser reduzidas a processos físico-químicos, biológicos ou cerebrais.

O que é psicologismo e por que Husserl o critica?

Psicologismo é a tentativa de fundamentar a lógica no funcionamento psicológico da mente. Husserl sustenta que a validade de uma lei lógica ou verdade matemática não depende de quem pensa, acerta ou erra.

A fenomenologia rejeita a ciência empírica?

Não. A aula afirma que ela não abandona observações, experimentos ou explicações causais; seu ponto é que esses recursos não esgotam as perguntas sobre o sentido e a vivência da experiência humana.

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