Marilena Chaui: Neoliberalismo: a nova forma do totalitarismo
Em palestra de abertura do curso de Psicanálise nas Situações Sociais Críticas da PUC-SP, Marilena Chaui sustenta que o neoliberalismo deve ser entendido como uma nova forma de totalitarismo. Ela reconstrói sua origem e seus mecanismos — privatização, desemprego estrutural, financeirização, vigilância e transformação do Estado em empresa — e argumenta que essa racionalidade corrói direitos, fragmenta a classe trabalhadora e produz subjetividades marcadas por competição, culpa, depressão e narcisismo. No debate final, relaciona esse quadro à teologia da prosperidade, à questão migratória, às campanhas de Collor e Bolsonaro e à memória da ditadura brasileira, defendendo a criação de formas coletivas de resistência e de direitos.
Vocabulário para compreensão
Estagflação
Situação econômica de baixo crescimento combinado com alta inflação. É apresentada como a crise dos anos 1970 que abriu espaço para a adoção de políticas neoliberais.
Fordismo
Modelo de produção baseado em grandes plantas industriais integradas, planejamento, estoques e produção em massa. Na fala, caracteriza a economia ligada ao Estado de bem-estar anterior à reorganização neoliberal.
Fundo público
Conjunto de recursos estatais usado tanto para financiar a acumulação do capital quanto serviços e gastos sociais. A palestra sustenta que a disputa neoliberal direciona esse fundo prioritariamente ao capital.
Salário indireto
Benefícios e serviços públicos que asseguram a reprodução da força de trabalho, como educação, saúde, previdência e transporte. Distingue-se do salário direto pago pela empresa ao trabalhador.
Desregulação
Redução ou remoção de controles estatais sobre a economia e as políticas sociais. É associada à privatização, à retirada da regulação pública e à expansão da lógica de mercado.
Desemprego estrutural
Desemprego que não é tratado como acidente passageiro ou efeito conjuntural de crise, mas como traço permanente do sistema econômico. A exposição o relaciona à automação, à rotatividade e à exclusão do mercado de trabalho.
Terceirização
Fragmentação da produção mediante contratação de serviços e distribuição de etapas produtivas entre diferentes empresas. É apresentada como um processo que dispersa os trabalhadores e enfraquece sua organização coletiva.
Toyotismo
Modelo produtivo baseado na fragmentação, flexibilização e dispersão das etapas de produção, em contraste com o fordismo. A fala o vincula ao just in time e à perda de referências coletivas da classe trabalhadora.
Just in time
Método de produção que reduz estoques duradouros e organiza o fornecimento conforme a necessidade imediata. É citado como elemento da passagem do fordismo ao toyotismo.
Acumulação por espoliação
Expressão usada para descrever a obtenção de riqueza por ocupação, devastação e apropriação de territórios e recursos. Na palestra, nomeia uma forma contemporânea de imperialismo.
Principais ideias
Chaui argumenta que o neoliberalismo é totalitário porque homogeneíza as instituições sociais sob a forma da organização empresarial e recusa a pluralidade de classes, modos de vida e conflitos sociais.
Contra a ideia de Estado mínimo, a palestra afirma que o Estado neoliberal se recompõe: reduz direitos e políticas sociais, direciona o fundo público ao capital e amplia vigilância, controle e segurança.
Na interpretação apresentada, saúde, educação, previdência e outros direitos sociais deixam de ser garantias públicas e são convertidos em serviços privados acessíveis conforme o poder de compra.
Escola, hospital, centro cultural e Estado passam a ser imaginados como empresas. Para Chaui, essa generalização da gestão e da concorrência é o núcleo da nova forma totalitária.
Uberização, desemprego estrutural e precariedade dissolvem referências coletivas de classe e fazem cada pessoa se ver como empreendimento individual, culpado se não vencer a competição.
A palestrante define democracia não apenas por eleições e divisão de poderes, mas pela capacidade social de criar, ampliar e garantir direitos, exercendo contrapoder sobre o Estado.
Chaui relaciona a teologia da prosperidade ao mundo do trabalho pulverizado: quando faltam referências coletivas, a explicação religiosa pode oferecer uma totalidade para sofrimento, medo e esperança individual.
Ao responder sobre a esquerda brasileira, Chaui recupera experiências de perseguição, tortura, desaparecimento e medo durante a ditadura para explicar por que sua geração apostou na democratização.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências
FILOSOFIAcapa em atualização
A psicanálise em situações sociais críticas: metodologia clínica e intervenções
Editora Escuta
Obra apresentada como coautoria de Jorge durante a abertura.

O Capital
Karl Marx
Chaui menciona o capítulo sobre acumulação primitiva ao discutir contrato de trabalho e liberdade formal do trabalhador.
FILOSOFIAcapa em atualização
População de rua
Jorge
Livro de Jorge mencionado na apresentação de suas obras.
FILOSOFIAcapa em atualização
Psicanálise nas Situações Sociais Críticas
PUC-SP
Curso de especialização lançado no evento, voltado à atuação em urgências e situações sociais críticas.
FILOSOFIAcapa em atualização
Psicanálise nas situações sociais críticas: violência, juventude e periferia em uma abordagem grupal
Jorge
Livro de Jorge apresentado na abertura como uma de suas obras.

Tratado Teológico-Político
Baruch Spinoza
Chaui afirma ter dado um curso sobre a obra ao introduzir uma resposta sobre religião e política.
FILOSOFIAcapa em atualização
A nova razão do mundo
Pierre Dardot e Christian Laval
Aprofunda a leitura do neoliberalismo como racionalidade que transforma indivíduos e instituições em empresas concorrenciais.
FILOSOFIAcapa em atualização
Breve história do neoliberalismo
David Harvey
Oferece contexto histórico para temas da palestra, incluindo acumulação por espoliação, financeirização e reestruturação do capitalismo.
FILOSOFIAcapa em atualização
A ética protestante e o espírito do capitalismo
Max Weber
É a referência central para a explicação de Chaui sobre calvinismo, predestinação, trabalho e teologia da prosperidade.

Origens do totalitarismo
Hannah Arendt
Ajuda a contrastar concepções clássicas de totalitarismo com a formulação contemporânea defendida na palestra.
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Trechos marcantes
Marilena Chaui — “Você acordava de manhã e se perguntava se a polícia ou o exército ia bater na porta.”
Marilena Chaui — “Nós apostamos na democratização.”
Ao situar o endurecimento da ditadura após o AI-5 e a Lei de Segurança Nacional, Chaui passa da análise histórica à experiência vivida: como professora da USP, dizia que já era considerada suspeita. Ela recorda colegas ausentes — presos, exilados, torturados ou mortos —, policiais disfarçados de estudantes em sala e o caso de Salinas, torturado porque sua ex-mulher conhecia um guerrilheiro.
Marilena Chaui — “Uma sociedade é democrática quando, além de eleições, partidos políticos, divisão dos três poderes da República, institui algo mais profundo: institui direitos.”
Marilena Chaui — “A sociedade democrática institui direitos pela abertura do campo social à criação de direitos reais novos.”
A definição vem logo após Chaui afirmar que a política neoliberal elimina direitos econômicos, sociais e políticos garantidos pelo poder público, convertendo-os em serviços vendidos no mercado. O contraste dá peso à frase: democracia não é só arquitetura institucional, mas ação social capaz de criar direitos novos e ampliar os existentes.
Marilena Chaui — “A escola é uma empresa, o hospital é uma empresa, o centro cultural é uma empresa, tudo é uma empresa.”
Marilena Chaui — “É isto o mundo, inteiramente como empresa. É isso que é totalitário.”
Chaui distingue instituição social de organização: enquanto a instituição é histórica e aberta à transformação, a organização é orientada por eficácia, planejamento, controle e êxito. É nesse enquadramento que ela afirma que o neoliberalismo torna equivalentes esferas antes distintas — escola, hospital, cultura e Estado — ao submetê-las ao modelo da empresa.
Marilena Chaui — “A uberização do trabalho, onde cada um acha que é empresário de si mesmo.”
Marilena Chaui — “O indivíduo é treinado para ser um investimento bem-sucedido e a interiorizar a culpa quando não vence a competição.”
O trecho sucede a afirmação de que o desemprego estrutural não é acidente, mas parte do sistema. Chaui diz que a uberização faz cada pessoa se ver como empresa individual ou capital humano, submetido à concorrência apresentada como meritocracia. Ela associa esse processo a medo, perda de autoestima, insegurança, sofrimento psíquico e destruição de vínculos de classe e solidariedade.
Marilena Chaui — “A distopia tem como ponto de chegada o horror do presente. A utopia tem como ponto de partida o horror do presente para propor outra coisa.”
Marilena Chaui — “É um horror no qual nós teremos esperanças.”
Antes de tratar do neoliberalismo como nova forma de totalitarismo, Chaui coloca sua análise sob dois enquadramentos: a tese de Walter Benjamin segundo a qual o inimigo não cessou de vencer e a diferença entre utopia e distopia. Para ela, ambas encaram a catástrofe, mas só a utopia parte dela para imaginar uma sociedade que negue ponto por ponto a existente.
Marilena Chaui — “O primeiro sinal é a prosperidade. É por isso que chama teologia da prosperidade.”
Marilena Chaui — “Se eu trabalhar e prosperar e ficar rico, é um sinal que eu tenho de que talvez eu vá me salvar.”
Respondendo a uma questão sobre trabalho, Chaui explica que, na predestinação calvinista, ninguém sabe se está destinado à salvação ou à danação. A prosperidade material passa então a funcionar como sinal possível de salvação. Ela segue mostrando a contradição: a riqueza do patrão depende do trabalho de outros, mas a prosperidade pode ser interpretada como prova moral de virtude.
Marilena Chaui — “O mal não é criado por nós, nem pelos outros. Ele nasce do tecido que fiamos entre nós e que nos sufoca.”
Marilena Chaui — “A conclusão não é a revolta, é a virtude, a resignação.”
Após analisar neoliberalismo, competição, depressão, narcisismo e tecnologias de comunicação, Chaui cita Merleau-Ponty. Antes da citação, ela observa que é confortável ouvir que tudo vai mal e depois voltar aos próprios afazeres com a consciência aliviada. O trecho ganha força por recusar essa catarse e perguntar que pessoas serão pacientes o bastante para refazer o tecido social.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Por que Marilena Chaui chama o neoliberalismo de nova forma de totalitarismo?
Porque, segundo a palestra, o neoliberalismo transforma instituições distintas em organizações empresariais, subordina a vida social à concorrência e reduz a pluralidade social a uma lógica única de gestão, desempenho e mercado.
O que é o precariado na análise apresentada por Chaui?
É uma nova classe trabalhadora marcada por ausência de emprego estável, contrato, sindicalização e seguridade social. Sua experiência seria atravessada por medo, insegurança, perda de autoestima e culpa pelo fracasso.
Como a uberização aparece na palestra?
A uberização é apresentada como forma de encobrir o desemprego estrutural ao fazer cada trabalhador se perceber como empresário de si mesmo, mesmo em condições precárias e competitivas.
Qual é a diferença entre instituição social e organização?
Para Chaui, a instituição possui legitimidade pública, autonomia, valores e historicidade. A organização se orienta por meios, metas, gestão, controle, eficiência e resultados delimitados.
Como Chaui define uma sociedade democrática?
Ela afirma que democracia não se limita a eleições, partidos e separação de poderes: uma sociedade é democrática quando cria, amplia e garante direitos, permitindo à sociedade agir como contrapoder.
Qual é a relação entre teologia da prosperidade e neoliberalismo na fala?
Chaui relaciona a promessa religiosa de prosperidade individual à ideologia competitiva do empreendedor de si. Em um mundo de trabalho fragmentado, essa teologia ofereceria uma explicação totalizante para sofrimento e esperança.

