A Era da Curadoria: O que Importa é Saber o que Importa | Mario Sergio Cortella
Mario Sergio Cortella defende que a era digital tornou insuficiente apenas disponibilizar informação: é preciso exercer curadoria, isto é, construir critérios para escolher o que importa, verificar fontes e transformar dados em conhecimento. A partir de memórias escolares, de Paulo Freire, de Alice no País das Maravilhas, do jornalismo e da relação entre pais, filhos e internet, ele propõe uma educação que parta da experiência concreta dos aprendizes, acolha a dúvida e forme autonomia individual e comunitária.

Quem é Mario Sergio Cortella?
Filósofo, escritor e educador
Mario Sergio Cortella é filósofo, escritor e educador brasileiro, doutor em Educação pela PUC-SP. Professor-titular aposentado da instituição, também atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo e tornou-se conhecido por divulgar reflexões sobre filosofia, educação, ética e cidadania.
Ver perfil completo →Vocabulário para compreensão
Informatofobia
Recusa ou medo do mundo digital e de suas tecnologias. É apresentada como uma reação apavorada que impede a atualização diante das novas formas de acesso à informação.
Informatolatria
Adoração acrítica das tecnologias digitais. Na fala, é o extremo oposto da informatofobia: aceitar o mundo digital sem discernimento nem questionamento.
Apropriação
Processo pelo qual algo se torna próprio de alguém, em vez de apenas passar por ele. O termo descreve o conhecimento e a arte que permanecem na pessoa depois de uma experiência.
Conhecimento inesquecível
Ideia de que o conhecimento verdadeiramente incorporado à vida não se reduz à memorização passageira. É contrastado com informações decoradas, que podem ser esquecidas.
Hipótese
Certeza provisória usada para investigar e avançar no campo científico. Na conversa, ela representa uma convicção aberta à revisão, diferentemente de uma verdade definitiva.
Dogma
Crença tomada como verdade fechada e inquestionável. É empregado para caracterizar aquilo que deixa de ser uma certeza provisória e bloqueia a possibilidade de dúvida.
Abstração
Ideia ou conceito separado de uma experiência concreta e perceptível. O termo aparece na explicação de que objetos matemáticos são criações humanas e na crítica a conteúdos ensinados sem ligação com a vida do estudante.
Leitura do mundo
Compreensão da realidade vivida, das experiências e do cotidiano de uma pessoa antes da leitura formal das palavras. É usada para defender que o ensino deve começar pelo universo concreto do aluno.
Educação bancária
Modelo de ensino em que o aluno é tratado como recipiente vazio no qual o professor deposita conteúdos. A fala o critica por reduzir a formação ao acúmulo e à cobrança de informações.
Suspeita
Atitude de questionar o que parece dado, certo ou confiável. É apresentada como condição necessária para a ciência, para a formação e para a avaliação das fontes de informação.
Principais ideias
Informação pode ser acumulada e esquecida; conhecimento é aquilo que a pessoa apropria, leva consigo e utiliza para compreender e operar a própria vida.
O curador não deve agir como um zelador que impede a entrada, mas como alguém que protege, cuida, amplia o acesso e ajuda a dar sentido ao que é disponibilizado.
Diante do excesso de fontes e conteúdos, navegar exige saber para onde se vai; sem propósito e seleção, a pessoa apenas se perde em informação.
A formação ganha sentido quando começa nos saberes, interesses e condições concretas do estudante, avançando daí para conhecimentos ainda não dominados.
Uma educação que não acolhe perguntas favorece repetição e memorização. A dúvida, a suspeita e o espanto são apresentados como motores da ciência e do conhecimento.
A democratização da edição digital amplia possibilidades, mas também facilita erros, banalizações e atribuições falsas; por isso, selecionar inclui desconfiar e verificar.
Professores, comunicadores e formadores precisam conhecer o universo de quem aprendem a formar, numa relação de reciprocidade e atualização contínua.
Jornalismo, comunicação e organização curricular selecionam, priorizam e recortam conteúdos. Cortella diferencia objetividade de uma neutralidade impossível.
Para acompanhar crianças e jovens no ambiente digital, pais e responsáveis precisam interessar-se pelo que mobiliza os filhos e transformar controle em conversa.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências

Alice Através do Espelho
Lewis Carroll
É citado na discussão sobre a conversa entre Alice e Humpty Dumpty a respeito do sentido das palavras e do poder.

Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Cortella chama a obra de filosófica e a utiliza para discutir realidade, direção e linguagem.
FILOSOFIAcapa em atualização
Caminho Suave
Cartilha de alfabetização usada como exemplo de material que não fazia sentido para todos os contextos dos alunos.
FILOSOFIAcapa em atualização
Memórias
Carlos Drummond de Andrade
Cortella menciona o poema ao afirmar que o conhecimento é vivo e compartilhado.

Pedagogia do Oprimido
Paulo Freire
A conversa discute educação bancária, autonomia e uma formação que parte da realidade concreta do educando.
FILOSOFIAcapa em atualização
Educação como Prática da Liberdade
Paulo Freire
Relaciona-se à ideia explicitamente mencionada de leitura do mundo como caminho para a leitura da palavra.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Sociedade em Rede
Manuel Castells
Ajuda a contextualizar as transformações da comunicação e da circulação de informação no ambiente digital.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Cultura da Convergência
Henry Jenkins
Amplia a discussão sobre participação, mídia e circulação de conteúdos entre diferentes plataformas.
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Trechos marcantes
Mario Sergio Cortella — “Uva não fazia sentido para ele, não importava.”
Mario Sergio Cortella — “Professor, obrigado, mas isso não é para mim não. Isso é pra gente como vocês. Eu sou burro.”
Cortella contrasta sua própria infância — filho de professora e bancário, em uma casa com jornal, cinema, viagens e adultos alfabetizados — com a de Cícero, da mesma idade. Em Caicó, no sertão do Seridó, Cícero foi alfabetizado em 1960 pela mesma cartilha que ensinava “Eva via uva”, embora uva não fizesse parte de sua realidade. Reprovado três vezes com a mesma cartilha, foi retirado da escola pelo pai para trabalhar na enxada. Já adulto, aparece com uma vassoura na mão e repete a ideia que ouvira da professora: “eu sou burro”.
Mario Sergio Cortella — “Lembra uma coisa: conhecimento é inesquecível. O que é esquecível é informação.”
Mario Sergio Cortella — “Informação é cumulativa; conhecimento é seletivo.”
Depois de lembrar que muitos passaram ao menos 15 anos estudando língua portuguesa, Cortella provoca a plateia com uma distinção gramatical que provavelmente já foi decorada e esquecida: adjunto adnominal e complemento nominal. A contradição expõe uma escolarização longa, frequentemente avaliada pela memória, que nem sempre se converteu em compreensão ou uso.
Mario Sergio Cortella — “Tem pais e mães que, quando chegam em casa, em vez de dialogar com o filho, estruturam uma auditoria.”
Mario Sergio Cortella — “Em vez de “o que você aprendeu hoje?”, pergunte: “o que você pode me ensinar hoje?””
A proposta aparece numa conversa sobre adultos que temem o que filhos veem online, mas chegam ao quarto tentando flagrá-los. Cortella observa que crianças e jovens podem dominar a tecnologia a ponto de trocar a página em um toque; fiscalização isolada não cria proximidade. A pergunta alternativa preserva o interesse pelo que vivem, mas muda a relação de auditoria para reconhecimento.
Mario Sergio Cortella — “O curador, a curadora, a pessoa que ajuda a formar outras pessoas, tem que dar lugar também para dúvida.”
Mario Sergio Cortella — “Se você não tem dúvidas é porque está mal informado.”
Cortella recupera a experiência de salas de aula em que a dúvida era motivo de choque e riso. No exemplo, um aluno diz não ter entendido uma fórmula; a professora apenas a repete com mais ênfase, como se o problema fosse de audição, e não de compreensão. A cena revela como perguntas podem ser constrangidas em vez de acolhidas.
Mario Sergio Cortella — “Há pessoas que dizem que navega na internet. Não é verdade: uma parte não navega, uma parte naufraga.”
Mario Sergio Cortella — “Para você navegar, você tem que ter clareza do para onde você vai.”
A frase vem depois de Cortella descrever um cotidiano de informação instantânea e lembrar que há pessoas que se sentem obrigadas a se conectar o tempo todo para saber fatos aleatórios. O impacto está na contradição: o acesso se multiplicou, mas sem seleção ele pode soterrar em vez de orientar.
Mario Sergio Cortella — “O conhecimento vem da emoção.”
Mario Sergio Cortella — “Você só aprende de fato o que mexe com você, o que te toca.”
Cortella, professor há 42 anos, marca a distância geracional com exemplos concretos: seus alunos universitários não conheceram Ayrton Senna e eram crianças quando as Torres Gêmeas caíram — acontecimentos que, para ele e parte da plateia, são memória, mas para eles são história. Por isso, diz que o professor precisa entrar no universo dos alunos, ouvir suas músicas, entender suas referências e também aprender.
Mario Sergio Cortella — “Na autópsia só diz: ‘Ó, não funciona, não dá certo.’”
Mario Sergio Cortella — “Na biópsia você pega uma coisa viva, vê o que ela tem de problema e procura corrigi-la para ela continuar viva.”
Ao encerrar a exposição, Cortella afirma que o conhecimento é vivo e não pode ser congelado. A imagem ganha força porque critica diagnósticos feitos apenas depois do fim: identificar “causa mortis” de uma prática educacional não a transforma. A biópsia, ao contrário, examina algo vivo para que possa continuar vivo.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
O que Mario Sergio Cortella entende por curadoria?
Curadoria é o trabalho de cuidar, selecionar, contextualizar e disponibilizar conhecimentos de modo que as pessoas possam construir critérios próprios. Não é fechar acessos, mas orientar escolhas.
Qual é a diferença entre informação e conhecimento na palestra?
Informação é cumulativa e pode ser esquecida; conhecimento é seletivo, apropriado pela pessoa e útil para compreender a vida, agir e solucionar problemas.
Por que Cortella diz que navegar na internet pode virar naufrágio?
Porque o excesso de fontes e conteúdos, sem propósito ou critérios de seleção, pode deixar a pessoa soterrada por informações que não se transformam em aprendizado.
Como a educação deve lidar com a realidade dos alunos?
Ela deve partir do que os alunos já conhecem, vivem e consideram significativo para chegar aos conhecimentos que ainda precisam construir, sem reduzir o ensino ao interesse imediato.
O que é educação bancária?
É a ideia, atribuída por Cortella a Paulo Freire, de que alunos seriam recipientes vazios nos quais professores depositam conteúdos. A palestra critica essa visão por limitar diálogo, dúvida e autonomia.
Qual é o papel dos pais diante da internet usada por crianças e jovens?
Pais e responsáveis devem acompanhar os interesses dos filhos, dialogar sobre o que veem e fazem online e evitar uma postura apenas fiscalizadora ou de auditoria.

