Entrevista com Michel Foucault na Universidade Católica de Louvain em 1981 - Legendado em PT/BR
Nesta entrevista de 1981, Michel Foucault explica que seu trabalho não parte de um sistema fechado, mas de questões suscitadas pela atualidade. Ele situa sua trajetória na interseção entre fenomenologia, marxismo, história das ciências e literatura das experiências-limite, e define o poder como relações que conduzem condutas. Ao tratar de loucura, medicina, prisão, sexualidade e direito, sustenta que sua história procura revelar como práticas aparentemente evidentes foram historicamente construídas, devolvendo-lhes mobilidade e abrindo possibilidades de ação crítica.
Vocabulário para compreensão
Aufklärung
Termo alemão traduzido na entrevista como “Iluminação” ou “Esclarecimento”. Designa a pergunta filosófica sobre a atualidade: quem somos e o que caracteriza o nosso presente.
Fenomenologia
Corrente filosófica voltada à descrição da experiência tal como é vivida ou percebida. Na conversa, é apresentada como uma influência importante, mas limitada por privilegiar experiências individuais e objetos acadêmicos.
Experiência vivida
Modo como um sujeito sente, percebe e atravessa uma situação. Foucault a contrapõe à investigação das condições sociais, culturais e institucionais que organizam experiências como a loucura.
Historicidade da razão
Ideia de que a própria razão, seus critérios e suas formas de produzir verdade possuem uma história. Ela orienta a pergunta sobre a possibilidade de fazer uma história da verdade e dos saberes.
Experiência-limite
Experiência situada nas fronteiras do que uma sociedade considera aceitável ou normal, como a loucura, a morte e o crime. Ela permite questionar os sistemas de razão, de lei e de saber a partir de seus pontos de ruptura.
Superestrutura
No vocabulário marxista, plano das instituições, ideias, leis e formas políticas relacionado à base econômica. Foucault considera insuficiente reduzir o funcionamento do poder a esse nível ou às relações de produção.
Veridicção
Termo para o ato ou as formas de dizer a verdade. Surge na entrevista em referência à investigação das práticas pelas quais algo é apresentado, exigido ou reconhecido como verdadeiro.
Racionalidade penal
Conjunto de critérios que torna certas formas de punir inteligíveis, aceitáveis e aparentemente evidentes. Na entrevista, refere-se à incorporação histórica da prisão e da privação de liberdade ao sistema penal.
Privação de liberdade
Pena que retira de alguém a liberdade como resposta a uma infração. Foucault destaca que sua aparente evidência como punição justa e lógica é uma construção histórica relativamente recente.
Problematização
Modo pelo qual algo passa a ser tratado como problema e exige reflexão, intervenção ou novas regras de conduta. Foucault define seu trabalho como uma história das problematizações da loucura, da enfermidade e da sexualidade.
Principais ideias
Foucault vincula sua pesquisa à questão inaugurada por Kant sobre a Aufklärung: perguntar quem somos, em que consiste nosso presente e o que acontece ao nosso redor.
Ele localiza sua formação no cruzamento da fenomenologia, do marxismo, da história das ciências e de escritores como Blanchot, Artaud e Bataille.
Em vez de limitar-se à descrição da experiência vivida individualmente, Foucault propõe analisar as estruturas sociais, culturais e institucionais que constituem experiências como a loucura.
Para Foucault, poder não é uma instância central ou substância que se espalha pela sociedade; são relações entre indivíduos e técnicas que buscam conduzir condutas.
Governar pode significar orientar condutas em uma sociedade, grupo, família ou relação individual. Essa perspectiva permite estudar cuidados, tratamentos, vigilância e dispositivos econômicos.
A análise histórica não visa provar que estamos inevitavelmente aprisionados, mas mostrar que práticas constituídas em circunstâncias precisas não são necessárias nem imutáveis.
A associação entre punição e privação de liberdade parece óbvia, mas Foucault afirma que ela se integrou à racionalidade penal somente no fim do século XVIII.
Foucault define seu projeto como uma história de como e por que loucura, doença, sexualidade e outras práticas se tornaram problemas em formas historicamente específicas.
Seu interesse pelo direito busca examinar relações, conflitos e irredutibilidades entre sociedades que funcionam segundo o direito e as tecnologias concretas de governo.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências

A ordem do discurso
Michel Foucault
Citado por Berten na apresentação das obras publicadas por Foucault.
FILOSOFIAcapa em atualização
Agir mal, dizer a verdade: Sobre a função da confissão na justiça
Universidade Católica de Louvain
Série de cursos/conferências ministrada por Foucault na Universidade Católica de Louvain.

Arqueologia do saber
Michel Foucault
Citado por Berten na apresentação das obras publicadas por Foucault.
FILOSOFIAcapa em atualização
As palavras e as coisas
Michel Foucault
Citado por Berten na apresentação das obras publicadas por Foucault.

História da loucura
Michel Foucault
É citado por Berten entre os livros de Foucault e reaparece como referência ao percurso de sua obra.

História da Sexualidade
Michel Foucault
Berten afirma que Foucault está escrevendo uma História da Sexualidade.

O Nascimento da Clínica
Michel Foucault
Citado por Berten na apresentação das obras publicadas por Foucault.
FILOSOFIAcapa em atualização
Vigiar e Punir
Michel Foucault
Citado por Berten na apresentação das obras publicadas por Foucault.
FILOSOFIAcapa em atualização
História da Sexualidade, Volume 1: A Vontade de Saber
Michel Foucault
O debate sobre sexualidade como problema histórico antecipa questões do projeto citado na apresentação.

Em Defesa da Sociedade
Michel Foucault
Amplia a investigação foucaultiana das relações entre poder, guerra, direito e sociedade, temas anunciados ao final da entrevista.
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Trechos marcantes
Michel Foucault — “O poder não é uma coisa. O poder são relações.”
Michel Foucault — “O poder são relações entre indivíduos, uma relação que consiste que um pode conduzir a conduta do outro.”
Depois de dizer que estudou psiquiatria, medicina e sistema penal, Foucault recusa a imagem de um poder oculto ou de uma rede fatal que aprisionaria progressivamente toda a sociedade. Ele contrapõe essa imagem à ideia de relações nas quais uns conduzem a conduta de outros.
Michel Foucault — “A privação de liberdade é a forma mais simples, mais lógica, razoável, equitativa, de castigar alguém porque cometeu uma infração, não se questionava.”
Michel Foucault — “Esta adequação que nos parece clara e simples da pena com a privação de liberdade é na realidade algo recente.”
Ao lembrar os debates sobre reforma penal no início dos anos 1970, Foucault nota uma contradição: discutiam-se o direito de punir e o regime penitenciário, mas não a premissa de que privar alguém da liberdade seria a punição mais lógica e equitativa. Ele situa a integração da prisão à racionalidade penal no fim do século XVIII.
Michel Foucault — “Nossa relação com a loucura é uma relação que está historicamente constituída.”
Michel Foucault — “E se está historicamente constituída, pode ser politicamente destruída.”
Foucault responde diretamente à leitura de que suas análises mostrariam apenas o quanto estamos “aprisionados” por laços que a história amarrou ao nosso redor. A virada é precisa: a relação com a loucura foi constituída por uma história e, portanto, pode ser politicamente desfeita por ações, reações, lutas e conflitos.
Michel Foucault — “Como nas práticas humanas em determinado momento as evidências se perdem, as luzes se apagam e a noite se faz.”
Michel Foucault — “A gente se dá conta de que está atuando a cegas e que, portanto, se necessita de uma nova luz.”
Ao nomear seu método de “história das problematizações”, Foucault distingue-o da história das teorias, das ideologias e das mentalidades. Ele compara o surgimento de um problema ao momento em que evidências se perdem, as luzes se apagam e se percebe que se agia às cegas, exigindo novas regras de comportamento.
Michel Foucault — “A filosofia, entre as diferentes funções que pode, e que deve ter, também tem esta: perguntar-se pelo que somos em nosso presente, em nossa atualidade.”
Michel Foucault — “Eu diria que é em torno disso que eu coloco a questão.”
Na entrevista realizada em 7 de maio de 1981, Foucault é perguntado pelo fio que liga seus estudos sobre psiquiatria, medicina, prisões, sexualidade e direito. Ele diz não se ver como escritor nem profeta e situa uma possível coerência em uma situação da qual “somos todos capturados”, não em um sistema pessoal fechado.
Michel Foucault — “O último que quero estudar é o problema da guerra e da instituição da guerra na dimensão militar da sociedade.”
Michel Foucault — “O que faz que uma Nação possa pedir a alguém que morra por ela.”
No encerramento da entrevista, Foucault diz que, “se Deus me conceder vida”, quer estudar a guerra depois de ter passado pela loucura, enfermidade, crime e sexualidade. Ele liga esse futuro objeto ao direito das pessoas, ao direito internacional e à justiça militar, terminando com a pergunta sobre uma nação pedir a morte de alguém.
Michel Foucault — “A atividade de dar um fundamento ao poder, atividade que consiste em se perguntar sobre o que funda o poder que exerço, o que pode fundar o poder que se exerce sobre mim, me parece ser uma questão importante.”
Michel Foucault — “Não se encontra o fundamento, mas é muito importante que em uma cultura como a nossa [...] o exercício do poder político se interroga por si mesmo.”
Berten pergunta se o método de Foucault busca desconstruir toda tentativa de fundamentar o poder. Foucault responde com uma tensão: as respostas sobre o fundamento pertencem a campos históricos relativos, mas a pergunta pelo que funda e legitima o poder político é, em sua cultura, uma interrogação que retorna há milênios.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é o fio condutor da obra de Michel Foucault segundo esta entrevista?
Foucault diz que não consegue identificar um fio condutor definitivo enquanto ainda escreve. Ainda assim, organiza sua pesquisa em torno da pergunta filosófica sobre quem somos no presente e sobre como nossa atualidade se constituiu.
Como Foucault define o poder?
Ele afirma que o poder não é uma coisa, uma substância ou uma instância central. O poder consiste em relações entre indivíduos e em técnicas pelas quais se procura conduzir condutas.
O que Foucault entende por governamentalidade?
Em sentido amplo, governamentalidade é o conjunto de relações de poder e técnicas de governo que orientam condutas em uma sociedade, um grupo, uma família ou uma relação individual.
Por que Foucault questiona a prisão?
Ele quer mostrar que a associação entre crime e privação de liberdade não é uma evidência natural. Trata-se de uma forma histórica de punição que se consolidou na racionalidade penal a partir do final do século XVIII.
O que é a história das problematizações?
É a investigação de como e por que certos objetos ou práticas, como loucura, doença e sexualidade, passam a ser percebidos como problemas em circunstâncias históricas específicas.
Qual é o interesse de Foucault pelo direito?
Foucault pretende estudar as relações, tensões e conflitos entre uma sociedade que funciona segundo o direito e as tecnologias de poder que governam concretamente as condutas.

