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O que é Filosofia? - Mario Sergio Cortella

Mario Sergio Cortella apresenta a filosofia como uma atividade que, na tradição ocidental, começou com perguntas sobre a origem e a composição do universo e ganhou, com Sócrates e Platão, uma forte dimensão de autoconhecimento. Para ele, conhecer-se filosoficamente não significa apenas olhar para dentro: significa compreender o próprio lugar na história e na comunidade, bem como o legado que se deixa na vida da pólis. Na parte final, ele diferencia esse horizonte da psicologia e da psicanálise, destacando que o conceito de inconsciente e a pretensão terapêutica pertencem a debates que não definem a filosofia em sua origem.

Mario Sergio Cortella
PALESTRANTE PRINCIPAL

Quem é Mario Sergio Cortella?

Filósofo, escritor e educador

Mario Sergio Cortella é filósofo, escritor e educador brasileiro, doutor em Educação pela PUC-SP. Professor-titular aposentado da instituição, também atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo e tornou-se conhecido por divulgar reflexões sobre filosofia, educação, ética e cidadania.

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TERMOS ESSENCIAIS

Vocabulário para compreensão

Cosmogonia

Investigação sobre a origem e a formação do universo. É apresentada como um dos campos iniciais da filosofia ocidental, voltado à pergunta sobre de onde o universo vem.

Cosmologia

Estudo filosófico da estrutura, constituição e ordem do universo. Na conversa, sucede a cosmogonia como modo de examinar de que o universo é feito.

Pólis

Cidade-Estado grega, entendida também como o espaço da vida pública e comunitária. O termo aparece para indicar que a reflexão sobre si inclui a participação na comunidade.

Psicanálise

Campo de estudo e prática que investiga processos psíquicos, especialmente aqueles que escapam ao controle consciente. É distinguida da filosofia por seu aparato conceitual próprio e por seu foco no inconsciente.

Inconsciente

Conjunto de forças, processos ou conteúdos psíquicos que agem em nós sem estarem sob controle consciente direto. O entrevistado o apresenta como uma noção central à psicanálise, mas não à concepção filosófica original.

Racionalidade

Capacidade de orientar a ação por compreensão consciente de seus motivos, meios e resultados. É associada à tradição filosófica que privilegia uma consciência nítida do que se faz e por que se faz.

Alma

Termo tradicional para designar o princípio da vida psíquica ou interior do ser humano. É mencionado em estudos de pensadores antigos e modernos que antecedem a psicologia como disciplina científica delimitada.

Filosofia da linguagem

Área da filosofia que examina a linguagem, seus significados e seus usos. É indicada como o campo específico ao qual se liga a filosofia analítica.

Filosofia clínica

Proposta de uso da filosofia em contextos de escuta e orientação pessoal. Na fala, é associada à intenção de acalmar ou ajudar pessoas, mas sem a mesma confirmação sólida atribuída a campos científicos estabelecidos.

SÍNTESE DA CONVERSA

Principais ideias

A filosofia começou com perguntas cosmológicas

Cortella associa os primeiros momentos da filosofia ocidental à investigação sobre a origem, a composição e a constituição do universo.

Sócrates desloca o foco para o autoconhecimento

A partir do período clássico, a questão filosófica passa também por saber quem se é, qual lugar se ocupa e qual contribuição se oferece à vida comum.

Autoconhecimento não é isolamento interior

Olhar para si serve para compreender como agir no exterior e como se relacionar com o mundo, com os outros e consigo mesmo.

Psicologia e filosofia têm campos próprios

Embora compartilhem questões sobre a vida humana, a psicologia e a psicanálise operam com ferramentas próprias, entre elas a noção de inconsciente.

Filosofia analítica não é sinônimo de terapia

Cortella observa que a filosofia analítica é uma área específica, ligada à filosofia da linguagem, e a distingue de propostas clínicas ou terapêuticas.

Capítulos do vídeo

Livros, cursos e referências

Capa de Apologia de Sócrates
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Apologia de Sócrates

Platão

Complementa a discussão sobre Sócrates, a vida examinada e a responsabilidade filosófica perante a cidade.

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Alcibíades I

Platão

Dialoga diretamente com o tema do conhecimento de si, central na exposição de Cortella.

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Sobre a Alma

Aristóteles

Aprofunda o antecedente filosófico das investigações sobre alma, mente e vida psíquica mencionado no vídeo.

Relacionado editorialmente · Livro

O Mal-Estar na Civilização

Sigmund Freud

Ajuda a contextualizar a diferença entre o olhar filosófico e a centralidade psicanalítica do inconsciente.

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Trechos marcantes

Mario Sergio Cortella — “Que sou eu? Qual é o meu lugar nessa comunidade, nessa história, nessa vida?”

Mario Sergio Cortella — “Qual é o meu legado? Qual é o meu contributo para a política, isto é, para a vida da pólis?”

Ao tratar do autoconhecimento na filosofia clássica do século V, Cortella recupera a pergunta socrática e a desloca para a vida comum: não basta perguntar quem se é; é preciso perguntar qual é o próprio lugar na comunidade, na história e na pólis.

Mario Sergio Cortella — “A filosofia lida só com o olhar para dentro? Não é olhar para dentro.”

Mario Sergio Cortella — “Você vê para poder ver como é que você age do lado externo também: a minha relação com o mundo, com as outras pessoas, comigo mesmo.”

Depois de associar o autoconhecimento ao legado e à vida da pólis, Cortella corrige uma redução recorrente: olhar para si não encerra a reflexão no indivíduo. Para ele, esse olhar permite perceber como se age diante do mundo e dos outros.

Mario Sergio Cortella — “A psicanálise lida muito com algo que a filosofia não marca: a noção de inconsciente.”

Mario Sergio Cortella — “Forças que estão em nós, mas que não têm necessariamente o nosso controle.”

Ao sair da discussão sobre Sócrates e Platão, Cortella distingue filosofia e psicanálise por um ponto preciso: a psicanálise trabalha com a noção de inconsciente, enquanto ele descreve a concepção filosófica original como orientada pela racionalidade e pela consciência da ação.
ARTIGO SOBRE O VÍDEO

Resumo completo

Neste trecho, Mario Sergio Cortella responde à pergunta sobre o que é filosofia por meio de uma breve trajetória da tradição ocidental. Ele afirma que a filosofia não nasceu exclusivamente como reflexão sobre o sujeito: em seus começos, esteve ligada a questões que hoje poderiam parecer próximas da física, da cosmogonia e da cosmologia. Ao mencionar Tales, Anaxímenes e Anaximandro, destaca perguntas sobre a origem, a composição e a constituição do universo. A partir do período clássico grego, sobretudo com Sócrates e Platão, Cortella identifica uma conexão decisiva entre filosofia e autoconhecimento. O lema socrático de conhecer-se é interpretado de modo amplo: não se limita a um conhecimento psicológico íntimo, mas envolve perguntar quem se é, qual lugar se ocupa na comunidade, na história e na vida, e qual legado ou contribuição se oferece à pólis. Nesse sentido, a investigação sobre si tem alcance político e coletivo. Cortella insiste que a filosofia não deve ser entendida como puro recolhimento interior. O olhar para dentro serve para perceber como alguém age externamente e se relaciona com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesmo. A dimensão socrática do autoconhecimento é, portanto, também uma reflexão sobre responsabilidade e participação na vida comum. Na sequência, ele diferencia esse horizonte da psicologia e da psicanálise. Embora os campos possam se tocar, a psicanálise é caracterizada por um aparato conceitual desenvolvido especialmente desde o final do século XIX e pela noção de inconsciente. Para o palestrante, a concepção filosófica original, fortemente associada à racionalidade e à consciência dos motivos da ação, não lidava com a ideia de forças internas que não estão necessariamente sob nosso controle. Por fim, a fala recorda que autores como Descartes, Tomás de Aquino e Aristóteles estudaram a alma, mas que a psicologia se consolidou mais tarde como área científica delimitada. Cortella também diferencia filosofia analítica, ligada à filosofia da linguagem, de propostas chamadas de filosofia clínica, encerrando com cautela quanto à consolidação teórica destas últimas.

Perguntas sobre esta conversa

Como Cortella explica a origem da filosofia?

Ele afirma que a filosofia ocidental nasceu também de perguntas próximas à física, à cosmogonia e à cosmologia: de onde vem o universo, do que ele é feito e como é constituído.

Qual é a relação entre filosofia e autoconhecimento?

Segundo o vídeo, a tradição associada a Sócrates e Platão entende o autoconhecimento como investigação sobre quem somos, qual lugar ocupamos e qual contribuição damos à comunidade.

Autoconhecimento filosófico é apenas olhar para dentro?

Não. Cortella sustenta que olhar para si permite compreender também como agir no mundo e como se relacionar com outras pessoas.

Qual diferença o vídeo estabelece entre filosofia e psicanálise?

A psicanálise é apresentada como um campo com aparato conceitual próprio e com centralidade para a noção de inconsciente, algo que não estruturava a concepção filosófica original discutida.

O que Cortella diz sobre filosofia analítica?

Ele ressalta que filosofia analítica é uma área filosófica específica, ligada à filosofia da linguagem, e não simplesmente uma prática terapêutica.

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