QUAL É A TUA OBRA? - Mário Sérgio Cortella - MOTIVAÇÃO COM GRAÇA
Em uma palestra voltada sobretudo a quem atua em instituições e no serviço público, Mário Sérgio Cortella pergunta “qual é a tua obra?” para defender que uma vida curta não precisa ser pequena. Ele relaciona importância à capacidade de fazer falta, critica a mornidão, a mediocridade e a atitude de apenas “fazer o possível”, e propõe que cada pessoa faça o seu melhor nas condições que possui, sem abandonar a luta por condições melhores. Entre exemplos de educação, gestão, cuidado, envelhecimento mental e participação coletiva, a fala sustenta que o legado se constrói nos vínculos, no trabalho bem feito e na recusa de viver de modo banal, fútil ou inútil.

Quem é Mario Sergio Cortella?
Filósofo, escritor e educador
Mario Sergio Cortella é filósofo, escritor e educador brasileiro, doutor em Educação pela PUC-SP. Professor-titular aposentado da instituição, também atuou como secretário municipal de Educação de São Paulo e tornou-se conhecido por divulgar reflexões sobre filosofia, educação, ética e cidadania.
Ver perfil completo →Vocabulário para compreensão
Juízo final
Na crença de religiões como cristianismo, judaísmo e islamismo, é o julgamento da vida de cada pessoa após a morte. Na fala, serve como imagem para examinar as razões dos atos e das omissões ainda em vida.
Mornos
Expressão bíblica para quem não é “quente nem frio”, isto é, age sem compromisso, intensidade ou posicionamento. O palestrante a emprega para caracterizar a acomodação no trabalho, nas relações e na vida pública.
Ética individualista
Modo de agir orientado prioritariamente pelo interesse próprio, sem consideração pelo bem comum. É apresentada como uma atitude exclusiva e destrutiva, oposta à partilha e ao cuidado coletivo.
Recordação
É o ato de lembrar; o palestrante destaca sua ligação etimológica com “passar de novo pelo coração”. Na conversa, designa a permanência de alguém na memória afetiva dos outros.
Síndrome do possível
Expressão usada para a postura de quem, podendo se empenhar mais, limita-se a dizer que fará apenas o possível. É criticada como uma renúncia antecipada à qualidade e à responsabilidade na ação.
Indigência mental
Pobreza de pensamento e de abertura ao novo, marcada pela recusa de aprender ou rever o que se acredita saber. É associada ao envelhecimento da percepção, independentemente da idade.
Ora et labora
Expressão latina que significa “reza e trabalha”, ligada à tradição beneditina. Na fala, indica que reflexão ou fé devem ser acompanhadas por ação concreta.
Regra beneditina
Conjunto de normas de vida comunitária formuladas para a ordem fundada por São Bento. O palestrante menciona uma de suas regras para condenar o hábito de resmungar sem agir.
Resmungar
Queixar-se de forma repetitiva e improdutiva, sem participar da solução do problema. É diferenciado de discutir, debater ou discordar, que podem ser formas construtivas de ação.
Pau-a-pique
Técnica tradicional de construção em que uma trama de madeira é preenchida com barro. Surge como exemplo de moradia simples que ainda pode revelar cuidado e esmero.
Principais ideias
A finitude da vida é apresentada como motivo para evitar uma existência superficial, banal ou inútil e para construir uma obra que honre a própria passagem.
Para Cortella, importante é quem faz falta e permanece na vida dos outros, mesmo sem visibilidade pública; fama, por si só, não produz relevância.
O exemplo de Dona Maria, que servia café na Secretaria de Educação, mostra que uma tarefa cotidiana pode ganhar sentido quando se compreende sua ligação com a educação e a cidadania.
O palestrante critica quem recebe recursos públicos enquanto despreza o próprio serviço público e lembra que atividades como educação, saúde e resgate impactam diretamente a vida de outras pessoas.
A pessoa idosa pode continuar aprendendo e se renovando; “velho”, no sentido criticado pela palestra, é quem se fecha ao conhecimento, à mudança e à iniciativa.
A oposição entre “fazer o possível” e “fazer o melhor” organiza a crítica à acomodação. O melhor, para ele, é relativo às condições reais e pode coexistir com a luta por melhorias.
Caprichar não depende de riqueza ou de infraestrutura ideal: é cuidar bem do que está ao alcance, como mostram os exemplos da comida preparada pela mãe, da casa simples e da escola com poucos recursos.
Inspirado na regra beneditina que proíbe resmungar, Cortella defende debate e discordância, mas rejeita a reclamação passiva que desmobiliza qualquer iniciativa.
A obra de alguém não precisa torná-lo imortal; ela pode permanecer nas pessoas, instituições, famílias e comunidades que foram fortalecidas por sua ação.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências

Apocalipse
O palestrante cita o capítulo 3, versículos 15 e 16, ao tratar da imagem dos “mornos”.
FILOSOFIAcapa em atualização
Gargântua e Pantagruel
François Rabelais
Obra mencionada ao apresentar uma frase atribuída a Rabelais sobre não querer quando se podia.
FILOSOFIAcapa em atualização
Não Nascemos Prontos!
Mário Sérgio Cortella
Livro mencionado ao falar de seu filho André, que teria escrito o prefácio da obra.
FILOSOFIAcapa em atualização
Pensatas Pedagógicas
Mário Sérgio Cortella
Título mencionado ao retomar a discussão sobre São Bento e a regra de não resmungar.
FILOSOFIAcapa em atualização
Qual é a Tua Obra?
Mário Sérgio Cortella
Livro que dá título à palestra e é citado como espaço em que o autor desenvolve a reflexão sobre obra, propósito e serviço público.
FILOSOFIAcapa em atualização
Viver em Paz para Morrer em Paz
Mário Sérgio Cortella
Cortella menciona a pergunta presente na capa: “Se você não existisse, que falta faria?”.
FILOSOFIAcapa em atualização
O Homem em Busca de Sentido
Viktor E. Frankl
A discussão sobre finitude, responsabilidade e sentido da ação dialoga diretamente com a busca de propósito proposta por Frankl.

Sobre a Brevidade da Vida
Sêneca
A reflexão sobre não desperdiçar uma vida inevitavelmente limitada se aproxima do argumento central do ensaio estoico.
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Trechos marcantes
Mário Sérgio Cortella — “Se você não existisse, que falta faria?”
Mário Sérgio Cortella — “Só tem um jeito de fazer falta: para fazer falta na vida, você tem que ser importante.”
Depois de dizer que a vida é curta e que todos morrerão, Cortella pergunta que ausência cada pessoa deixaria. Ele contrasta quem é lembrado por ter criado, apoiado ou estado junto com alguém e quem, até em um Natal, pode ter uma ausência recebida com alívio.
Mário Sérgio Cortella — “Tá fazendo o possível ou o melhor?”
Mário Sérgio Cortella — “Não é o melhor do mundo, é o teu melhor na condição que você tem.”
Antes da pergunta, Cortella imagina uma pessoa com sinais de apendicite sendo levada ao centro cirúrgico e ouvindo da médica: “Vou fazer o possível”. A cena torna concreta a diferença entre uma atitude aceitável em palavras e insuficiente quando a ação afeta a vida de alguém.
Mário Sérgio Cortella — “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo,”
Mário Sérgio Cortella — “qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim.”
Já no encerramento, depois de falar de uma vida curta que não precisa ser pequena, Cortella cita Chico Xavier. Ele afirma não ter crença reencarnacionista, mas admira Chico Xavier por ter passado a vida tentando fazer o melhor nas condições que tinha.
Mário Sérgio Cortella — “A tragédia não é quando um homem morre.”
Mário Sérgio Cortella — “A tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo.”
Cortella apresenta a frase após contar que Albert Schweitzer, aos 30 anos, decidiu estudar medicina, formou-se sete anos depois e passou 50 anos no Gabão servindo outras pessoas. Em seguida, usa a citação para dizer que não pode morrer a dignidade de uma vida que não seja banal, fútil ou inútil.
Mário Sérgio Cortella — “A regra 34 de São Bento diz: é proibido resmungar.”
Mário Sérgio Cortella — “Não é proibido discutir, não é proibido debater, não é proibido discordar; é proibido resmungar.”
Cortella diz que a regra deveria estar em toda câmara municipal, escola, cidade, prefeitura, secretaria e família. Ele a contrapõe à postura de quem só diz “que horror, alguém tem que fazer alguma coisa” e acredita que nada pode ser feito para não precisar se mover.
Mário Sérgio Cortella — “Não confunda importante com famoso.”
Mário Sérgio Cortella — “Tem muita gente que é importante e não tem a menor fama; e tem muita gente absolutamente famosa e não tem a menor importância.”
Logo depois de perguntar que falta cada pessoa faria, Cortella cita uma auxiliar de enfermagem que cuida de alguém em coma há três meses, mesmo sem ser reconhecida pela pessoa atendida. O exemplo dá rosto ao valor do cuidado silencioso.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é a pergunta central da palestra de Mário Sérgio Cortella?
A pergunta central é “qual é a tua obra?”. Ela convida cada pessoa a refletir sobre o que deixará nos outros, na comunidade e no trabalho quando partir.
O que Cortella quer dizer ao afirmar que a vida é curta demais para ser pequena?
Ele defende que a finitude não deve levar à passividade. Uma vida se torna pequena quando é vivida de modo banal, fútil, inútil ou sem compromisso com algo que eleve a vida coletiva.
Qual é a diferença entre ser importante e ser famoso?
Para Cortella, ser importante é fazer falta e permanecer na vida das pessoas por meio do cuidado e da contribuição real. A fama pode existir sem produzir esse impacto.
O que é a síndrome do possível, segundo a palestra?
É a atitude de se contentar em “fazer o possível” em vez de buscar fazer o melhor nas condições disponíveis. Cortella a apresenta como uma forma de acomodação e mediocridade.
Como a palestra define capricho?
Capricho é fazer o melhor que se pode com os recursos e condições existentes, enquanto se busca criar condições para fazer melhor ainda. Não depende de riqueza, mas de cuidado e responsabilidade.
Por que Cortella diferencia idoso de velho?
Idoso é quem tem mais idade; “velho”, no sentido usado na palestra, é quem se fecha ao aprendizado, à mudança e à renovação das próprias ideias.

