"A ideia de vida entre os gregos" | CMnário com Profa. Adriane da Silva Duarte
Adriane da Silva Duarte apresenta um percurso pela ideia de vida entre os gregos, começando pela diferença entre zoé, a vida natural comum aos seres vivos, e bíos, a forma qualificada de viver em sociedade. A palestra passa pela cosmogonia de Hesíodo, pelo sopro vital e pela morte em Homero, pelo ar como princípio em Anaxímenes, pela alma automovente e imortal em Platão e pela definição aristotélica de vida como nutrição, crescimento, percepção e movimento. Na discussão final, a professora aproxima esses debates da pandemia, da respiração e de questões contemporâneas como o estatuto biológico dos vírus.
Quem é Adriane da Silva Duarte?
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Bíos
Termo grego para uma forma ou maneira qualificada de viver, própria de um indivíduo ou grupo. Na conversa, designa especialmente modos de vida sociais, políticos, contemplativos ou voltados ao prazer.
Zoé
Termo grego que indica o simples fato de viver, comum a animais, seres humanos e deuses. É usado na exposição para distinguir a vida natural e vegetativa dos modos qualificados de vida chamados bíos.
Psique
Palavra grega frequentemente traduzida por “alma”, mas que, em Homero, é entendida como sopro vital. Sua saída do corpo marca a morte do guerreiro.
Sopro vital
Princípio que anima e mantém vivo um corpo, associado à psique na poesia homérica. A fala o relaciona ao ar, à respiração e ao movimento.
Soma
Palavra grega para corpo, empregada na exposição como o corpo inanimado ou cadáver quando a psique o abandona. Ajuda a marcar a diferença entre corpo vivo e morto.
Arché
Termo grego para princípio, origem ou fundamento. É empregado para pensar aquilo de que procedem a vida, os seres e o cosmos.
Cosmogonia
Narrativa ou explicação sobre a origem e a organização do cosmos. Na conversa, aparece na leitura da Teogonia e nas investigações dos filósofos anteriores a Sócrates.
Teogonia
Relato da origem dos deuses, ligado também à formação do cosmos no pensamento mítico grego. A obra de Hesíodo é apresentada como exemplo desse tipo de narrativa.
Caos
Na Teogonia, é o primeiro elemento primordial a nascer e corresponde a um espaço aberto a partir do qual o cosmos se desenvolve. Não é usado apenas no sentido moderno de desordem.
Vitalismo
Perspectiva segundo a qual a vida, a alma e o movimento estão estreitamente associados. A palestra usa o termo para caracterizar uma atitude atribuída aos pensadores de Mileto.
Principais ideias
A distinção entre zoé e bíos permite separar a vida natural, comum aos viventes, das formas qualificadas de existência individual, social e cultural.
Na poesia homérica, a psique é explicada como sopro vital: quando ela deixa o corpo, o guerreiro perde vida e movimento.
Anaxímenes associa o ar à alma, ao movimento e à sustentação do cosmos, fazendo dele um princípio vital abrangente.
No Fedro, a alma é imortal porque move a si mesma e funciona como princípio de movimento para o que recebe movimento de fora.
Para Aristóteles, viver envolve capacidades como nutrição, crescimento, envelhecimento, sensação, deslocamento e pensamento.
A palestra destaca a distância entre Aristóteles e Platão: para Aristóteles, a alma é forma de um corpo vivo e não subsiste sem ele.
A associação grega entre ar, movimento e vida é retomada à luz da COVID-19, das mortes por asfixia e das ameaças ambientais.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências

Fedro
Platão
O diálogo é mobilizado para explicar a alma automovente e sua imortalidade.

Homo Sacer
Giorgio Agamben
A palestrante recorre ao capítulo inicial da obra para introduzir a distinção entre zoé e bíos.

Ilíada
Homero
Passagens de cantos do poema são citadas para mostrar como a psique deixa o corpo na morte do guerreiro.
FILOSOFIAcapa em atualização
Metamorfoses
Ovídio
A obra é mencionada em resposta sobre possíveis diferenças entre tradições gregas e latinas de cosmogonia.
FILOSOFIAcapa em atualização
Os Pré-socráticos: Fragmentos, doxografia e comentários
José Cavalcante de Souza (org.)
Indicado na descrição do vídeo como leitura adicional sobre pensadores pré-socráticos.
FILOSOFIAcapa em atualização
Os Trabalhos e os Dias
Hesíodo
É citado na resposta sobre o início da vida humana, especialmente no relato da criação de Pandora.
FILOSOFIAcapa em atualização
Sobre a alma
Aristóteles
A obra sustenta a parte final da palestra, dedicada à definição aristotélica de vida e alma.

Teogonia
Hesíodo
É apresentada como poema sobre a origem do cosmos e dos deuses; a palestrante comenta versos sobre Caos, Terra, Tártaro e Eros.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Morte na Grécia Antiga
Jean-Pierre Vernant
Aprofunda o contexto cultural grego em que vida, morte, corpo e destino são pensados.
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Trechos marcantes
Adriane da Silva Duarte — “Praticamente não há um dia que a gente não se pergunte: mas o que constitui a vida?”
Adriane da Silva Duarte — “A gente não tem mais esse luxo que é simplesmente se permitir viver no piloto automático.”
O seminário abre com solidariedade às famílias de mais de 320 mil vítimas da COVID-19 no Brasil. Logo depois, Adriane descreve a tragédia sanitária como algo vivido de forma particularmente atroz no país e diz que ela tornou diária a pergunta sobre o que constitui a vida.
Adriane da Silva Duarte — “Estamos lidando com uma doença que mata por asfixia, pela falta do oxigênio.”
Adriane da Silva Duarte — “Essa questão da associação entre o ar e a vida [...] os gregos também fizeram essa correlação.”
A fala acontece em 2021, durante a pandemia. Adriane cita as queimadas na Amazônia e no Pantanal como risco real para a continuidade da vida no planeta e, em seguida, lembra uma doença que mata por falta de oxigênio e o debate público sobre sufocamento que marcou protestos no ano anterior.
Adriane da Silva Duarte — “Toda alma é imortal, pois o que move a si mesmo é imortal.”
Adriane da Silva Duarte — “O que [...] deixa de viver quando cessa o movimento.”
O trecho vem depois de exemplos em Homero, Anaxímenes e Tales que aproximam vida, alma e movimento. Em Platão, porém, o movimento passa a sustentar um argumento específico para a imortalidade da alma.
Adriane da Silva Duarte — “A alma [...] parece escapar do corpo pelo ferimento aberto pela lança.”
Adriane da Silva Duarte — “Esse sopro vital pode deixar o corpo no momento da morte.”
A professora comenta três passagens da Ilíada, poema marcado por batalhas e mortes de guerreiros. Na primeira, um golpe no flanco rasga a psique pelo ferimento; ela usa a imagem para alertar que traduzir psique apenas como “alma” pode importar um conceito cristão para Homero.
Adriane da Silva Duarte — “Chamamos vida à autoalimentação, ao crescimento e ao envelhecimento.”
Adriane da Silva Duarte — “Para dizermos que algo vive basta que um deles se concretize.”
A definição aparece logo após a discussão da imortalidade platônica e antes de Adriane enfatizar a distância entre Platão e Aristóteles: para este último, a alma não existe sem o corpo, embora não se confunda com ele.
Adriane da Silva Duarte — “Como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos...”
Adriane da Silva Duarte — “...assim também todo o cosmo o sopro e o ar o mantêm.”
Adriane ressalta que não há citação direta preservada de Anaxímenes e que seu pensamento chega por comentários de autores posteriores. Mesmo com essa mediação, a formulação é marcante por unir, num mesmo princípio, a coesão do corpo, a alma e a ordem cósmica.
Fernando Valls — “Os gregos [...] veriam que vírus têm ou não têm vida?”
Adriane da Silva Duarte — “Pela definição que ele apresenta do que é estar vivo, o vírus para ele estaria vivo.”
A pergunta surge durante uma palestra realizada na pandemia, depois de uma discussão sobre ar, asfixia e COVID-19. Fernando observa que há debate na biologia sobre os vírus por sua dependência de um organismo; Adriane responde como hipótese interpretativa e, ao final, reconhece a falta de consenso entre biólogos.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é a diferença entre zoé e bíos na palestra?
Zoé designa a vida natural ou o simples fato de viver, compartilhado pelos seres vivos. Bíos designa uma forma qualificada de vida, como uma maneira de viver individual, social ou política.
O que a psique significa em Homero?
Na leitura apresentada, psique é sobretudo o sopro vital que pode deixar o corpo no momento da morte. A palestrante alerta que traduzi-la diretamente pela noção cristã de alma pode ser anacrônico.
Por que Anaxímenes considera o ar importante para a vida?
Anaxímenes associa o ar à alma e ao movimento. O ar mantém o ser vivo unido e também funciona como princípio do cosmos e de tudo o que existe.
Como Platão relaciona alma, movimento e imortalidade?
No Fedro, a alma é imortal porque move a si mesma. Como princípio de movimento, ela não depende de uma causa externa para continuar movendo-se.
Como Aristóteles define a vida?
Aristóteles associa a vida a faculdades como nutrição, crescimento, envelhecimento, percepção, movimento e pensamento. Para ele, a alma é a forma de um corpo natural que possui vida em potência.
Aristóteles consideraria os vírus seres vivos?
A professora oferece uma hipótese: pelos critérios aristotélicos de participação em faculdades como nutrição e reprodução, ele possivelmente os consideraria vivos, embora reconheça que a discussão biológica contemporânea permanece aberta.

