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Palestra Monja Coen - Sobre a Felicidade - Grupo UNUS

Nesta palestra, Monja Coen apresenta a felicidade não como acumulação ou prazer isolado, mas como contentamento que nasce de uma mente desperta, de relações compassivas e de ações que beneficiam mais seres. A partir de ensinamentos budistas, memórias pessoais, viagens à Índia e exemplos cotidianos, ela relaciona meditação, educação, consumo, política pública, cuidado ambiental e não violência. Sua proposta é transformar a cultura de violência por meio de observação de si, responsabilidade concreta e inclusão, entendendo cada pessoa como manifestação do todo.

01:01:15•Budismo
PALESTRANTE PRINCIPAL

Quem é Monja Coen?

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TERMOS ESSENCIAIS

Vocabulário para compreensão

Sangha

Comunidade de praticantes que se apoia no caminho espiritual. A palestrante se refere à sangha como um espaço de acolhimento e prática compartilhada.

Mantra

Fórmula sonora ou frase repetida em canto, oração ou prática devocional. No início, é mencionado como parte final de um sutra.

Sutra do Coração

Texto budista associado à sabedoria profunda e à compreensão da realidade. É citado como a fonte do mantra entoado na abertura.

Despertar

Estado de acordar para a realidade e sair de modos automáticos de viver. A fala explica Buda como “o desperto”, aquele que deixa de viver como um zumbi.

Impermanência

Ideia de que nada é fixo, permanente ou imutável. É usada para mostrar que dor, circunstâncias e a própria vida estão sempre se transformando.

Sinapses neurais

Conexões entre neurônios que se fortalecem ou enfraquecem conforme os estímulos e repetições. A palestrante usa essa noção para explicar por que a prática contínua pode alterar hábitos mentais.

Sabedoria

Capacidade de perceber a realidade e agir adequadamente conforme as circunstâncias. Na fala, significa causar o mínimo de dano possível e o máximo de benefício.

Dualidade

Modo de perceber a realidade em oposições separadas, como eu e outro, humano e não humano. A palestrante propõe romper essa divisão para mudar o olhar sobre a vida.

Carma

Ideia de que ações têm consequências, frequentemente associada a vidas passadas e futuras. A fala critica uma interpretação do carma que levaria alguém a aceitar passivamente a desigualdade de sua condição.

Castas

Sistema tradicional de estratificação social associado à Índia, que classifica pessoas em grupos hereditários. É mencionado ao discutir desigualdade, direitos e a necessidade de transformação social nesta vida.

SÍNTESE DA CONVERSA

Principais ideias

A dor existe, mas o sofrimento pode ser ampliado

Perdas, doenças e dificuldades fazem parte da vida, mas a mente frequentemente acrescenta novas “flechas” ao que já dói. A prática ajuda a não carregar sofrimento extra sobre circunstâncias inevitáveis.

A prática precisa atravessar a vida cotidiana

Meditação, oração e devoção não devem ficar restritas a rituais, livros ou mestres. Elas se manifestam na forma de perceber necessidades reais e agir no mundo.

Felicidade depende do bem comum

Para a palestrante, o contentamento mais profundo surge quando as escolhas pessoais e profissionais beneficiam o maior número possível de seres.

Educação afetiva forma uma cultura de paz

A maneira como crianças são desejadas, cuidadas, ouvidas e incluídas influencia sua relação futura com a violência, a ternura e a convivência social.

Cuidar do planeta é reconhecer a interdependência

Água, lixo, cidades e outras formas de vida não são problemas externos. A sobrevivência humana depende de perceber que não existe um eu separado do planeta.

Compaixão não é passividade diante da violência

Intervir diante de uma agressão e recorrer a instituições preparadas para proteger pessoas pode ser uma atitude compassiva. O ponto é não responder ao dano com vingança.

A paz exige ação pessoal e política

A oração é valorizada, mas não basta sozinha: a transformação pede atitudes diárias, diálogo, acordos e políticas públicas voltadas à água, à terra, ao lixo e à redução da violência.

Meditar transforma padrões aprendidos

A observação silenciosa da mente permite reconhecer condicionamentos de agressividade e criar novas formas de responder, em vez de repetir automaticamente a violência.

Coerência ética vale para crenças e consumo

A palestrante questiona a distância entre discurso e prática religiosa, além de convidar a refletir sobre exploração do trabalho nas cadeias de consumo.

A nova geração recebe uma responsabilidade

No encerramento, Monja Coen confia às gerações mais jovens a continuidade do trabalho por um mundo mais habitável, cuidadoso e respeitoso.

Capítulos do vídeo

Livros e cursos citados

Citado no vídeo · livro

Budismo e Psicanálise

Erich Fromm

A palestrante diz que sua mãe leu a obra de Erich Fromm sobre budismo e psicanálise, o que a ajudou a aceitar sua escolha religiosa.

Capa de O Crime do Padre Amaro
Citado no vídeo · livro

O Crime do Padre Amaro

Eça de Queirós

É citado entre os livros do pai que ela era proibida de ler quando criança.

Capa de O Mandarim
Citado no vídeo · livro

O Mandarim

Eça de Queirós

Monja Coen relata ter lido o romance aos nove anos e resume o dilema do protagonista que toca um sino e herda uma fortuna.

Citado no vídeo · livro

Política para não ser idiota

Mário Sérgio Cortella

A obra é citada ao defender que ninguém pode se declarar alheio à vida política e ao cuidado da Terra.

Relacionado editorialmente · livro

A Arte da Felicidade

Dalai Lama e Howard C. Cutler

Aproxima-se da discussão sobre felicidade, compaixão, treinamento mental e ética contemplativa.

Relacionado editorialmente · livro

Paz a Cada Passo

Thich Nhat Hanh

Oferece práticas de atenção plena aplicadas a ações simples do cotidiano, em sintonia com a palestra.

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Trechos marcantes

Monja Coen — “Minha mão esquerda não pegou o martelo e foi bater na direita: “Ó, sua mão direita, você bateu em mim, agora vou bater em você.””

Monja Coen — “Isso é guerra: “Você matou meu menino, eu vou matar dez dos seus meninos agora.””

Depois de lembrar como as Torres Gêmeas a fizeram sentir que todo seu trabalho pela paz não estava servindo, Monja Coen propõe outra resposta à violência. Ao narrar a história de um monge que machuca o dedo com um martelo e imediatamente o segura, ela explica compaixão como cuidar da parte ferida de um mesmo corpo — e denuncia a escalada que responde à morte de uma criança com a ameaça de matar dez outras.

Monja Coen — “A vida já nos dá cada flechada, pra que que você pega outras flechas e fica pondo em cima daquelas que a vida já deu?”

Monja Coen — “O sofrimento existe, mas não precisa pôr outros em cima.”

Ao abrir uma palestra sobre felicidade e bem-estar, Monja Coen não parte de uma ideia abstrata de positividade. Ela nomeia situações concretas: a morte de alguém amado e o diagnóstico de uma doença para a qual ainda há poucas curas. A marca do trecho está em reconhecer essa dor como real e, ao mesmo tempo, questionar a ruminação que acrescenta novas “flechas” ao que já aconteceu.

Monja Coen — “Vocês falam uma coisa e fazem outra.”

Monja Coen — “A gente com 13 anos é assim: a gente quer coerência, coerência entre aquilo que é falado, que é dito e que é praticado.”

Monja Coen volta aos 13 anos, quando decidiu que não iria mais à igreja. A contradição que a marcou era doméstica: a carne servida à mesa não era a mesma oferecida a quem comia na cozinha, e por vezes a sobremesa não chegava aos empregados que cuidavam dela. Diante de uma fé que dizia que todos eram irmãos, ela não encontrou coerência entre discurso e prática.

Monja Coen — “Todo mundo falava baixinho porque tem um bebê aqui, e o bebê é muito delicado, é um bebê humano.”

Monja Coen — “Imaginou a gente poder criar todos os bebês humanos desse jeito? Nós vamos ter um mundo maravilhoso.”

Aos 67 anos, Monja Coen fala da chegada de um bisneto e do desejo de deixar um mundo melhor para ele. Ela descreve o parto em casa, acompanhado com medo e oração porque o bebê chegou a ficar com a boca roxa; depois, o quarto em luz baixa, música suave e vozes baixas. A delicadeza da cena ganha dimensão coletiva quando ela pergunta se todos os bebês — inclusive os das periferias mais carentes — poderiam ser recebidos assim, antes de dizer que quer passar o bastão às gerações seguintes.

Monja Coen — “Aí nós vamos ter verdadeira felicidade, aí nós vamos ter o que se chama contentamento com existência.”

Monja Coen — “Eu tô fazendo o meu melhor pro melhor de todos os seres.”

A fala vem após exemplos concretos de consumo e exploração: a filha alerta sobre uma loja que, segundo ela, explorava bolivianos, e Monja Coen questiona relações econômicas sustentadas por trabalho semi-escravizado. O trecho ganha força porque ela não condena simplesmente o consumo; pergunta se empresas, parceiros e escolhas podem beneficiar mais seres. Em seguida, afirma que também erra e tenta corrigir os erros.

Monja Coen — “A gente esquece que esse é o maior presente que você pode dar a alguém: não sentir medo.”

Monja Coen — “Como é que nós criamos condições de não medo?”

A frase surge da contradição entre bairros com casas e calçadas bonitas e o medo de caminhar por suas ruas. Monja Coen observa também que funcionários e empregados podem circular por espaços que os moradores raramente percorrem a pé. A reflexão transforma segurança em pertencimento: se a cidade é de todos, como criar condições para que ninguém precise vivê-la com medo?

Monja Coen — “Eles eram homens muito grandes e eles vieram todos de shortinho. Eles acharam que meditar era uma atividade física.”

Monja Coen — “Eu acho que o policial, se ele tiver presente, consciente, ele vai ser menos violento.”

Depois de defender que compaixão também exige interferir diante da violência e de dizer que respeita policiais por fazerem um trabalho para o qual ela não é treinada, Monja Coen conta uma caminhada meditativa no Parque da Luz. Os policiais foram de shortinho e tênis porque imaginaram que meditação seria exercício físico; ela, então, os guiou pela respiração e pela atenção aos pés. O humor da cena abre espaço para uma discussão sobre a pressão de lidar diariamente com a raiva e a violência alheias.
ARTIGO SOBRE O VÍDEO

Resumo completo

Monja Coen inicia a palestra com o Sutra do Coração, o despertar budista e a ideia de que a sabedoria precisa aparecer na vida de cada pessoa, não apenas nos livros ou mestres. Ao falar de felicidade, ela distingue a dor inevitável — como doenças e mortes — do sofrimento que a mente amplia. A impermanência, a meditação e a prática contínua são apresentadas como caminhos para observar a realidade com profundidade e não viver de forma automática. A palestra amplia essa transformação interior para a educação e a vida coletiva. Família, escola, amizades e leituras moldam a forma de pensar; por isso, crianças precisam de cuidado, escuta, transparência e respeito. A meditação não seria exclusiva de adultos, mas uma possibilidade de formação humana desde cedo. Para Monja Coen, pessoas criadas com ternura e reconhecimento podem se tornar “átomos de paz”, enquanto uma sociedade que naturaliza humilhação e exclusão reproduz violência. Seus relatos de viagem à Índia servem para confrontar o público com pobreza, desigualdade, morte e diferentes formas de perceber a realidade. A fala insiste que espiritualidade não pode significar indiferença: visitantes, consumidores e cidadãos precisam perguntar como são vistos por aqueles que encontram e que efeitos suas escolhas produzem. Nesse sentido, ela defende direitos à saúde, educação e respeito à vida, além de responsabilidade ambiental em relação à água, ao lixo e à cidade. A noção de compaixão organiza grande parte da argumentação. Pela metáfora de uma mão que cuida da outra quando um dedo é machucado, Monja Coen critica a lógica de retaliação que transforma violência em violência maior. Compaixão não é passividade: pode exigir intervenção, proteção e instituições preparadas para lidar com conflitos. Ela propõe diálogo, acordos políticos e ações públicas, argumentando que a política faz parte da vida comum e que ninguém está realmente fora dela. No final, a palestrante relaciona felicidade a coerência ética e consumo consciente. Ela não condena o desejo de conforto, mas convida a investigar exploração e sofrimento envolvidos na produção do que se compra. A verdadeira felicidade, em sua formulação, é o contentamento de fazer o melhor pelo bem de todos os seres. Meditar, então, é trabalhar nos padrões profundos da mente, reconhecer erros, corrigir rumos e construir uma cultura de paz. O encerramento, marcado pelo relato do nascimento de seu bisneto, confia às novas gerações a continuidade desse cuidado com o mundo.

Perguntas sobre esta conversa

Como Monja Coen define felicidade nesta palestra?

Ela associa felicidade ao contentamento com a existência: viver de modo que as próprias ações busquem beneficiar o maior número possível de seres, em vez de produzir culpa e dano.

O que significa não acrescentar novas flechas ao sofrimento?

Significa não intensificar mentalmente dores inevitáveis, como perdas e doenças, com ruminação, desespero ou narrativas fixas sobre a situação.

Qual é a relação entre meditação e cultura de paz?

A meditação é apresentada como um treinamento para observar emoções, reconhecer condicionamentos violentos e responder com mais consciência, em vez de reagir automaticamente.

A compaixão significa aceitar passivamente a violência?

Não. A palestra defende intervir ou buscar ajuda diante de agressões, mas sem transformar a proteção em vingança ou repetição da violência.

Por que a palestra relaciona felicidade e meio ambiente?

Porque a palestrante entende que não existe um eu separado do planeta. Cuidar de água, lixo, cidades e outras formas de vida é parte da responsabilidade humana e do bem-estar coletivo.

O que a palestrante diz sobre coerência religiosa?

Ela relata que, ainda adolescente, se incomodava com a distância entre discursos de fraternidade e práticas de desigualdade, defendendo coerência entre fala e ação.