Clara FilosofiaClara Filosofia

Origens do capitalismo: Braudel e Marx | Maria da Conceição Tavares

Maria da Conceição Tavares apresenta o capitalismo como problema histórico de tempo, espaço e estrutura. Em diálogo crítico com Braudel, Marx, Schumpeter, Polanyi e outros autores, ela contrapõe a visão da longa duração — em que o capitalismo se expande desde o comércio mediterrâneo — à ênfase nas rupturas das revoluções políticas e industriais. A aula examina a Pax Britannica, a emergência do sistema fabril norte-americano, a industrialização tardia brasileira e a formação de centros e periferias, defendendo que crises, guerras e transformações produtivas não podem ser explicadas por estágios lineares. Sua tese final é que nenhuma hegemonia se sustenta apenas em armas, dinheiro e técnica: ela depende também de impor valores, instituições jurídicas e uma visão de mundo.

01:28:59•Cultura
PALESTRANTE PRINCIPAL

Quem é Maria da Conceição Tavares?

Economista, escritora, matemática e política

Maria da Conceição Tavares foi economista, escritora, matemática e política luso-brasileira, reconhecida por suas contribuições ao estudo do desenvolvimento econômico e da industrialização brasileira. Foi professora da Unicamp e da UFRJ e deputada federal pelo Rio de Janeiro.

Ver perfil completo →
TERMOS ESSENCIAIS

Vocabulário para compreensão

Economia-mundo

Conceito de uma economia organizada em escala ampla, articulando regiões em torno de circuitos de comércio e acumulação. Na fala, designa a expansão histórica do capitalismo a partir do Mediterrâneo até abarcar o mundo.

Longa duração

Perspectiva histórica que privilegia continuidades lentas e processos de muitos séculos, em vez de acontecimentos imediatos. É associada ao modo de estudar o capitalismo como processo civilizatório antigo.

Comércio de longa distância

Comércio realizado entre regiões muito afastadas, capaz de conectar mercados e ampliar a circulação de mercadorias. É apresentado como elemento decisivo da expansão inicial do capitalismo mercantil.

Antigo Regime

Ordem política e social europeia anterior às revoluções modernas, marcada por privilégios, monarquia e hierarquias estamentais. A exposição o trata como alvo da ruptura política liberal e burguesa.

Capital mercantil

Forma de capital vinculada sobretudo ao comércio e à circulação de mercadorias. Na aula, aparece como uma forma persistente do capitalismo, e não simplesmente como uma fase que desaparece diante da indústria.

Capital financeiro

Capital ligado ao crédito, aos bancos, às finanças e à movimentação monetária. É tratado como forma historicamente duradoura, articulada de maneiras variáveis ao capital industrial e mercantil.

Economia de mercado

Esfera das trocas e da concorrência entre agentes econômicos. Na interpretação apresentada, ela ocupa um nível distinto do capitalismo monopolista, que não é reduzido ao mercado concorrencial.

Capitalismo monopolista

Organização capitalista em que grandes empresas e grupos econômicos concentram poder e escapam à concorrência plena. A fala o contrapõe à economia de mercado e o relaciona ao apoio estatal, bancário e à grande indústria.

Mercado autorregulado

Ideia de que o mercado seria capaz de ordenar espontaneamente a vida econômica e social sem intervenção decisiva do Estado. A aula a apresenta como parte da racionalização liberal e como construção ideológica problemática.

Ordem natural

Noção de que mercado, propriedade e interesses individuais expressariam uma ordem espontânea ou natural. É usada para caracterizar a justificativa moral do liberalismo, criticada por ocultar processos históricos e sociais.

SÍNTESE DA CONVERSA

Principais ideias

Capitalismo é continuidade e ruptura

Braudel ajuda a ver a longa expansão do capitalismo mercantil a partir das cidades e do comércio de longa distância; Marx e outros autores ajudam a entender que rupturas políticas, industriais e estruturais mudam decisivamente sua dinâmica.

Não há sucessão simples entre capital mercantil, industrial e financeiro

A palestrante rejeita a periodização que transforma essas formas em estágios exclusivos: elas coexistem, embora o capital industrial tenha papel singular na transformação da base técnica e do trabalho.

O liberalismo converte uma experiência histórica em ordem natural

A associação entre mercado, propriedade, comércio, liberdade individual e paz é criticada como racionalização ideológica que perde aderência quando desconsidera Estados, monopólios e instituições.

A industrialização altera a estrutura social

O capital industrial é decisivo não por ser sempre financeiramente dominante, mas porque revoluciona meios de produção, processo de trabalho e integração entre seres humanos e máquinas.

A hegemonia britânica foi mundial e imperial

A Inglaterra não teria transformado a economia mundial apenas pela técnica: sua força mercantil, financeira, militar e colonial instituiu a divisão internacional do trabalho e a relação centro-periferia.

O sistema fabril americano não é uma simples etapa europeia

A formação produtiva dos Estados Unidos é vinculada à Guerra Civil, às peças intercambiáveis, à grande empresa e a um vasto mercado interno, em dinâmica distinta da experiência inglesa.

O Brasil condensa problemas do capitalismo periférico

A industrialização brasileira é descrita como tardia, rápida e violenta, atravessada pela origem colonial, pela dependência e pela dificuldade de reproduzir trajetórias de potências centrais.

A hegemonia exige valores compartilhados ou impostos

Armas, dinheiro, comércio e tecnologia não bastam para sustentar uma ordem mundial: uma potência precisa universalizar uma filosofia moral, jurídica e cultural.

A ordem mundial permanece uma questão aberta

A palestra termina perguntando se a coordenação entre grandes potências pode evitar guerras e integrar os países continentais e periféricos, sem oferecer uma resposta conclusiva.

Capítulos do vídeo

Livros, cursos e referências

Citado no vídeo · Livro

As consequências econômicas da paz

John Maynard Keynes

Citado ao tratar da devastação europeia, das hiperinflações e da desordem econômica após a Primeira Guerra Mundial.

Citado no vídeo · Livro

O Japão que Sabe Dizer Não

Recomendado como leitura de romance, em referência a uma crítica japonesa ao individualismo norte-americano e à defesa de família, hierarquia, meritocracia, cooperação e solidariedade.

Citado no vídeo · Livro

O Tempo do Mundo

Fernand Braudel

Indicado como texto de referência para a aula e como síntese do método de análise histórica de Braudel.

Capa de O Capital
Relacionado editorialmente · Livro

O Capital

Karl Marx

Fundamenta os temas de mercadoria, capital industrial, trabalho assalariado, forças produtivas e contradições do capitalismo mobilizados na exposição.

Relacionado editorialmente · Livro

A Grande Transformação

Karl Polanyi

Apoia a discussão sobre mercado autorregulado, padrão ouro, alta finança e Pax Britannica.

Relacionado editorialmente · Livro

A Era do Capital

Eric Hobsbawm

Oferece contexto histórico para industrialização, impérios, burguesia e formação da economia mundial no século XIX.

Alguns links podem ser de afiliados. Se você comprar por eles, o site pode receber comissão sem custo adicional para você.

Trechos marcantes

Maria da Conceição Tavares — “A dominação hegemônica não pode se basear apenas nas armas, na técnica e no dinheiro.”

Maria da Conceição Tavares — “Ela precisa de vender ao mundo um modelo de filosofia moral, de direito.”

Depois de afirmar que Alemanha e Japão foram fortes em armas, dinheiro e técnica, mas não se tornaram hegemônicos, Tavares sustenta que o poder duradouro exige vencer também no campo dos valores. Ela aponta o liberalismo como um sistema de valores que se tornou francamente hegemônico, inclusive com adesão da esquerda.

Maria da Conceição Tavares — “O capitalismo é efetivamente a generalização completa da mercadoria.”

Maria da Conceição Tavares — “É a conversão do trabalho, da terra e do dinheiro em mercadorias, é a coisa mais antinatural possível.”

A frase vem após Tavares reconstruir a visão liberal segundo a qual mercado, propriedade, comércio e ordem social caminham juntos sob uma ordem natural. Em seguida, ela contrapõe essa ideia à mercantilização de trabalho, terra e dinheiro e diz que a expansão ilimitada do sistema desestrutura cidades, comunidades e formas de viver.

Maria da Conceição Tavares — “Nós somos uma espécie de civilização de bricabraque com todos os problemas do mundo.”

Maria da Conceição Tavares — “Eles levaram 400 anos para fazer a Revolução Burguesa, nós tivemos que fazê-la no martelo em 1930.”

Ao falar de industrializações tardias, Tavares recusa explicar o Brasil apenas pelo patrimonialismo: ela localiza a origem no sistema colonial e lembra a inserção periférica do país na divisão internacional do trabalho. A provocação culmina na comparação entre os 400 anos atribuídos à Revolução Burguesa europeia e a aceleração brasileira a partir de 1930.

Maria da Conceição Tavares — “Concorrência pura. Conhecimento perfeito. Previsibilidade. Estabilidade nos parâmetros.”

Maria da Conceição Tavares — “Evidentemente que a capacidade preditiva é nenhuma e o modelo fica cada vez mais uma ideologia.”

Antes da crítica, Tavares distingue abstração de afastamento da realidade: para ela, um modelo só vale enquanto as instituições sobre as quais foi construído mantêm alguma permanência. Ela cita mudanças no dinheiro — de mercadoria a dinheiro de Banco Central, crédito e mercado de capitais — para mostrar o que os modelos neoclássicos deixam de incorporar.

Maria da Conceição Tavares — “Cada vez que alguém diz, bendita a crise, eu tenho um colega brasileiro, o Teotônio, que disse, no Chile, bendita a crise.”

Maria da Conceição Tavares — “Tomou um golpe militar pelos cornos e até hoje anda pelo mundo.”

Ao perguntar se uma possível crise financeira mundial seria benéfica para países como China, Índia e Brasil, Tavares diz explicitamente que não tem resposta. A lembrança de Teotônio dos Santos no Chile introduz uma consequência concreta: crises e rupturas podem vir acompanhadas de golpe militar e deslocamento forçado.

Maria da Conceição Tavares — “A dominância do capital industrial é característica desta civilização, deste modo de produção.”

Maria da Conceição Tavares — “É ele quem produz as maiores transformações na base técnica, no processo de trabalho, submissão e regulação do homem e da máquina.”

Depois de comparar as trajetórias industriais inglesa, norte-americana e japonesa, Tavares explica que a centralidade da indústria não decorre de ela ter sido sempre dominante. O ponto é sua capacidade de transformar a base técnica, o processo de trabalho e a integração entre homem e máquina. Ela contrasta isso com o capital mercantil e financeiro, que pode avançar sobre escravidão, tradição e outras formas preexistentes.
ARTIGO SOBRE O VÍDEO

Resumo completo

Nesta aula, Maria da Conceição Tavares propõe que o estudo do capitalismo exige tratar simultaneamente de tempo, espaço e estrutura. O problema não pode ser resolvido por uma única data de origem nem por uma sequência linear de estágios. A exposição parte do contraste entre Fernand Braudel, para quem o capitalismo deve ser visto na longa duração das cidades, do comércio de longa distância e da economia-mundo mediterrânea, e autores como Marx e Schumpeter, que destacam a força das rupturas políticas, tecnológicas e produtivas. Na perspectiva braudeliana apresentada, capitalismo mercantil, industrial e financeiro coexistem historicamente. Braudel também separaria a economia de mercado, associada à concorrência, de uma esfera superior monopolista. Tavares considera essa leitura poderosa para compreender continuidades civilizatórias, mas sustenta que ela não elimina a importância das rupturas. Para a tradição crítica, o capitalismo generaliza a mercadoria ao converter trabalho, terra e dinheiro em objetos de compra e venda; sua expansão ilimitada produz desorganização social, crises, guerras e deslocamentos geográficos de seus custos. A palestra contrapõe a visão liberal — que associa mercado, propriedade, comércio, liberdade individual e ordem social — à visão que insiste na contradição entre liberdade e necessidade. A promessa liberal de uma ordem natural e pacífica é descrita como utopia histórica, assim como outras promessas de convergência final, seja no Estado-razão, seja na sociedade sem classes. Tavares não nega a força histórica do liberalismo, mas critica sua persistência como ideologia quando as instituições e a estrutura econômica já mudaram profundamente. Essa crítica se estende à teoria econômica. Para a palestrante, abstrair é selecionar elementos relevantes da realidade; não é congelar tipos ideais e tratá-los como explicação definitiva. Modelos de concorrência pura, conhecimento perfeito e estabilidade dos parâmetros se tornam estéreis quando ignoram instituições, formas monetárias, Estados e transformações históricas. Por isso, ela reivindica uma crítica institucionalista mesmo para autores liberais: o modelo só vale enquanto as instituições que o sustentam conservam alguma permanência. A aula apresenta os Estados Unidos como caso extremo de alienação ideológica. Tavares argumenta que uma sociedade marcada por grande expansão produtiva, empresas monopolistas e intervenção estatal não poderia ser adequadamente interpretada por uma filosofia moral herdada do liberalismo clássico. A crítica não se limita à economia: alcança valores, direito, bem comum e individualismo. O ultraindividualismo, segundo ela, pode levar à própria destruição do indivíduo e coexistir com uma racionalização moral pobre. Ao tratar do Brasil, Tavares rejeita explicações simplistas baseadas apenas no patrimonialismo. Ela destaca a origem colonial, a condição periférica e a industrialização tardia. O país teria condensado, em ritmo acelerado e sob dependência, transformações que as potências europeias viveram durante séculos. Daí a imagem do Brasil como uma civilização de bricabraque: uma formação que reúne problemas de distintas trajetórias históricas do capitalismo. A industrialização de 1930 e a aceleração posterior são vistas como processos reais de modernização, mas também como experiências violentas e socialmente desiguais. A hegemonia britânica é explicada para além da Primeira Revolução Industrial. A Inglaterra teria imposto uma ordem mundial por sua força mercantil, financeira, militar e colonial, construindo a divisão internacional do trabalho e o sistema centro-periferia. A Pax Britannica, o padrão ouro-libra e a alta finança são apresentados como dispositivos dessa ordem. Ao mesmo tempo, a industrialização posterior de Alemanha, Estados Unidos e Japão mostra que novas capacidades produtivas podem desafiar impérios estabelecidos e desencadear conflitos entre potências. A Primeira Guerra Mundial ocupa lugar decisivo porque desorganiza a ordem europeia sem caber confortavelmente em uma explicação apenas tecnológica. A guerra destrói o padrão ouro, produz instabilidade e abre espaço para a ascensão norte-americana. Tavares critica leituras que reduzem o período a ciclos econômicos: duas guerras mundiais, depressões, hiperinflações e desordens monetárias exigem considerar também poder estatal, finanças e geopolítica. Na análise do caso norte-americano, a palestrante destaca a especificidade de seu sistema fabril. A Guerra Civil, a expansão territorial, a mecânica das peças intercambiáveis, a grande empresa, o crédito e os mercados de capitais ajudariam a formar uma estrutura produtiva distinta da inglesa. Por isso, ela recusa encaixar a experiência dos Estados Unidos como simples ciclo subordinado a uma periodização europeia. O sistema fabril transforma a capacidade de produzir bens de capital e articula os departamentos produtivos de maneira própria. Tavares reafirma, em chave marxista, a centralidade do capital industrial. Não porque comércio e finanças desapareçam, mas porque a indústria revoluciona continuamente a base técnica, o processo de trabalho e a relação entre seres humanos e máquinas. O trabalho assalariado torna-se indispensável a essa forma de produção de um modo que não é exigido da mesma maneira pelo capital mercantil ou financeiro. A industrialização, portanto, é simultaneamente força de expansão e fonte de rupturas sociais. Na conclusão, a aula desloca o debate para a hegemonia de valores. Uma potência não se torna hegemônica apenas por armas, dinheiro, técnica ou comércio. Ela precisa fazer circular um modelo moral, jurídico e cultural capaz de legitimar sua ordem. Essa tese ajuda a explicar a força persistente do liberalismo e orienta a pergunta sobre o futuro da ordem mundial diante da crescente centralidade asiática, da relação entre Oriente e Ocidente e da coordenação entre Estados Unidos, Alemanha e Japão. Tavares encerra sem respostas fechadas. Pergunta se a coordenação entre grandes potências pode evitar guerra, qual será o lugar de China, Índia e Brasil e se crises financeiras podem reordenar o sistema. Recusa celebrar crises, lembrando seus custos políticos e humanos. Seu ponto final é que a evolução do capitalismo depende da articulação entre níveis diversos: produção, dinheiro, técnica, Estado, guerra, espaço mundial e valores. Uma ordem mundial efetivamente universal exigiria, para além da mercadoria e do poder material, algum sistema comum de valores.

Perguntas sobre esta conversa

Qual é a diferença entre Braudel e Marx sobre as origens do capitalismo?

Braudel enfatiza a longa duração: o capitalismo se forma progressivamente a partir das cidades, do comércio de longa distância e da economia-mundo. Marx, na leitura apresentada, enfatiza as rupturas estruturais ligadas à generalização da mercadoria, às revoluções políticas e à industrialização.

Maria da Conceição Tavares considera o capitalismo apenas um sistema industrial?

Não. Ela afirma que formas mercantis, industriais e financeiras coexistem. Contudo, considera o capital industrial decisivo por revolucionar a técnica, o processo de trabalho e a relação entre seres humanos e máquinas.

Como a aula explica a hegemonia britânica?

A hegemonia britânica é explicada pela articulação entre comércio, finanças, poder militar, dominação colonial, padrão ouro e imposição de uma divisão internacional do trabalho que organizou centros e periferias.

Qual é a crítica da aula aos modelos liberais de mercado?

A crítica é que modelos de concorrência pura e equilíbrio ignoram instituições, Estados, monopólios, mudanças do dinheiro e conflitos históricos; por isso, podem se tornar formulações ideológicas sem capacidade explicativa.

Como o Brasil aparece na análise?

O Brasil é apresentado como país periférico de origem colonial e industrialização tardia, que condensou rapidamente processos históricos vividos de forma mais longa pelas potências centrais.

Por que valores são importantes para a hegemonia?

Segundo a aula, armas, dinheiro, técnica e comércio não bastam. Uma potência se torna hegemônica quando também consegue difundir e legitimar seu sistema de valores, seu direito e sua visão de mundo.

CONTINUE EXPLORANDO

Vídeos sugeridos

Ver todos os vídeos →