Origens do capitalismo: Braudel e Marx | Maria da Conceição Tavares
Maria da Conceição Tavares apresenta o capitalismo como problema histórico de tempo, espaço e estrutura. Em diálogo crítico com Braudel, Marx, Schumpeter, Polanyi e outros autores, ela contrapõe a visão da longa duração — em que o capitalismo se expande desde o comércio mediterrâneo — à ênfase nas rupturas das revoluções políticas e industriais. A aula examina a Pax Britannica, a emergência do sistema fabril norte-americano, a industrialização tardia brasileira e a formação de centros e periferias, defendendo que crises, guerras e transformações produtivas não podem ser explicadas por estágios lineares. Sua tese final é que nenhuma hegemonia se sustenta apenas em armas, dinheiro e técnica: ela depende também de impor valores, instituições jurídicas e uma visão de mundo.
Quem é Maria da Conceição Tavares?
Economista, escritora, matemática e política
Maria da Conceição Tavares foi economista, escritora, matemática e política luso-brasileira, reconhecida por suas contribuições ao estudo do desenvolvimento econômico e da industrialização brasileira. Foi professora da Unicamp e da UFRJ e deputada federal pelo Rio de Janeiro.
Ver perfil completo →Vocabulário para compreensão
Economia-mundo
Conceito de uma economia organizada em escala ampla, articulando regiões em torno de circuitos de comércio e acumulação. Na fala, designa a expansão histórica do capitalismo a partir do Mediterrâneo até abarcar o mundo.
Longa duração
Perspectiva histórica que privilegia continuidades lentas e processos de muitos séculos, em vez de acontecimentos imediatos. É associada ao modo de estudar o capitalismo como processo civilizatório antigo.
Comércio de longa distância
Comércio realizado entre regiões muito afastadas, capaz de conectar mercados e ampliar a circulação de mercadorias. É apresentado como elemento decisivo da expansão inicial do capitalismo mercantil.
Antigo Regime
Ordem política e social europeia anterior às revoluções modernas, marcada por privilégios, monarquia e hierarquias estamentais. A exposição o trata como alvo da ruptura política liberal e burguesa.
Capital mercantil
Forma de capital vinculada sobretudo ao comércio e à circulação de mercadorias. Na aula, aparece como uma forma persistente do capitalismo, e não simplesmente como uma fase que desaparece diante da indústria.
Capital financeiro
Capital ligado ao crédito, aos bancos, às finanças e à movimentação monetária. É tratado como forma historicamente duradoura, articulada de maneiras variáveis ao capital industrial e mercantil.
Economia de mercado
Esfera das trocas e da concorrência entre agentes econômicos. Na interpretação apresentada, ela ocupa um nível distinto do capitalismo monopolista, que não é reduzido ao mercado concorrencial.
Capitalismo monopolista
Organização capitalista em que grandes empresas e grupos econômicos concentram poder e escapam à concorrência plena. A fala o contrapõe à economia de mercado e o relaciona ao apoio estatal, bancário e à grande indústria.
Mercado autorregulado
Ideia de que o mercado seria capaz de ordenar espontaneamente a vida econômica e social sem intervenção decisiva do Estado. A aula a apresenta como parte da racionalização liberal e como construção ideológica problemática.
Ordem natural
Noção de que mercado, propriedade e interesses individuais expressariam uma ordem espontânea ou natural. É usada para caracterizar a justificativa moral do liberalismo, criticada por ocultar processos históricos e sociais.
Principais ideias
Braudel ajuda a ver a longa expansão do capitalismo mercantil a partir das cidades e do comércio de longa distância; Marx e outros autores ajudam a entender que rupturas políticas, industriais e estruturais mudam decisivamente sua dinâmica.
A palestrante rejeita a periodização que transforma essas formas em estágios exclusivos: elas coexistem, embora o capital industrial tenha papel singular na transformação da base técnica e do trabalho.
A associação entre mercado, propriedade, comércio, liberdade individual e paz é criticada como racionalização ideológica que perde aderência quando desconsidera Estados, monopólios e instituições.
O capital industrial é decisivo não por ser sempre financeiramente dominante, mas porque revoluciona meios de produção, processo de trabalho e integração entre seres humanos e máquinas.
A Inglaterra não teria transformado a economia mundial apenas pela técnica: sua força mercantil, financeira, militar e colonial instituiu a divisão internacional do trabalho e a relação centro-periferia.
A formação produtiva dos Estados Unidos é vinculada à Guerra Civil, às peças intercambiáveis, à grande empresa e a um vasto mercado interno, em dinâmica distinta da experiência inglesa.
A industrialização brasileira é descrita como tardia, rápida e violenta, atravessada pela origem colonial, pela dependência e pela dificuldade de reproduzir trajetórias de potências centrais.
Armas, dinheiro, comércio e tecnologia não bastam para sustentar uma ordem mundial: uma potência precisa universalizar uma filosofia moral, jurídica e cultural.
A palestra termina perguntando se a coordenação entre grandes potências pode evitar guerras e integrar os países continentais e periféricos, sem oferecer uma resposta conclusiva.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências
FILOSOFIAcapa em atualização
As consequências econômicas da paz
John Maynard Keynes
Citado ao tratar da devastação europeia, das hiperinflações e da desordem econômica após a Primeira Guerra Mundial.
FILOSOFIAcapa em atualização
O Japão que Sabe Dizer Não
Recomendado como leitura de romance, em referência a uma crítica japonesa ao individualismo norte-americano e à defesa de família, hierarquia, meritocracia, cooperação e solidariedade.
FILOSOFIAcapa em atualização
O Tempo do Mundo
Fernand Braudel
Indicado como texto de referência para a aula e como síntese do método de análise histórica de Braudel.

O Capital
Karl Marx
Fundamenta os temas de mercadoria, capital industrial, trabalho assalariado, forças produtivas e contradições do capitalismo mobilizados na exposição.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Grande Transformação
Karl Polanyi
Apoia a discussão sobre mercado autorregulado, padrão ouro, alta finança e Pax Britannica.

Formação Econômica do Brasil
Celso Furtado
Aprofunda os problemas brasileiros de colonização, dependência, industrialização e inserção periférica mencionados na aula.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Era do Capital
Eric Hobsbawm
Oferece contexto histórico para industrialização, impérios, burguesia e formação da economia mundial no século XIX.
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Trechos marcantes
Maria da Conceição Tavares — “A dominação hegemônica não pode se basear apenas nas armas, na técnica e no dinheiro.”
Maria da Conceição Tavares — “Ela precisa de vender ao mundo um modelo de filosofia moral, de direito.”
Depois de afirmar que Alemanha e Japão foram fortes em armas, dinheiro e técnica, mas não se tornaram hegemônicos, Tavares sustenta que o poder duradouro exige vencer também no campo dos valores. Ela aponta o liberalismo como um sistema de valores que se tornou francamente hegemônico, inclusive com adesão da esquerda.
Maria da Conceição Tavares — “O capitalismo é efetivamente a generalização completa da mercadoria.”
Maria da Conceição Tavares — “É a conversão do trabalho, da terra e do dinheiro em mercadorias, é a coisa mais antinatural possível.”
A frase vem após Tavares reconstruir a visão liberal segundo a qual mercado, propriedade, comércio e ordem social caminham juntos sob uma ordem natural. Em seguida, ela contrapõe essa ideia à mercantilização de trabalho, terra e dinheiro e diz que a expansão ilimitada do sistema desestrutura cidades, comunidades e formas de viver.
Maria da Conceição Tavares — “Nós somos uma espécie de civilização de bricabraque com todos os problemas do mundo.”
Maria da Conceição Tavares — “Eles levaram 400 anos para fazer a Revolução Burguesa, nós tivemos que fazê-la no martelo em 1930.”
Ao falar de industrializações tardias, Tavares recusa explicar o Brasil apenas pelo patrimonialismo: ela localiza a origem no sistema colonial e lembra a inserção periférica do país na divisão internacional do trabalho. A provocação culmina na comparação entre os 400 anos atribuídos à Revolução Burguesa europeia e a aceleração brasileira a partir de 1930.
Maria da Conceição Tavares — “Concorrência pura. Conhecimento perfeito. Previsibilidade. Estabilidade nos parâmetros.”
Maria da Conceição Tavares — “Evidentemente que a capacidade preditiva é nenhuma e o modelo fica cada vez mais uma ideologia.”
Antes da crítica, Tavares distingue abstração de afastamento da realidade: para ela, um modelo só vale enquanto as instituições sobre as quais foi construído mantêm alguma permanência. Ela cita mudanças no dinheiro — de mercadoria a dinheiro de Banco Central, crédito e mercado de capitais — para mostrar o que os modelos neoclássicos deixam de incorporar.
Maria da Conceição Tavares — “Cada vez que alguém diz, bendita a crise, eu tenho um colega brasileiro, o Teotônio, que disse, no Chile, bendita a crise.”
Maria da Conceição Tavares — “Tomou um golpe militar pelos cornos e até hoje anda pelo mundo.”
Ao perguntar se uma possível crise financeira mundial seria benéfica para países como China, Índia e Brasil, Tavares diz explicitamente que não tem resposta. A lembrança de Teotônio dos Santos no Chile introduz uma consequência concreta: crises e rupturas podem vir acompanhadas de golpe militar e deslocamento forçado.
Maria da Conceição Tavares — “A dominância do capital industrial é característica desta civilização, deste modo de produção.”
Maria da Conceição Tavares — “É ele quem produz as maiores transformações na base técnica, no processo de trabalho, submissão e regulação do homem e da máquina.”
Depois de comparar as trajetórias industriais inglesa, norte-americana e japonesa, Tavares explica que a centralidade da indústria não decorre de ela ter sido sempre dominante. O ponto é sua capacidade de transformar a base técnica, o processo de trabalho e a integração entre homem e máquina. Ela contrasta isso com o capital mercantil e financeiro, que pode avançar sobre escravidão, tradição e outras formas preexistentes.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é a diferença entre Braudel e Marx sobre as origens do capitalismo?
Braudel enfatiza a longa duração: o capitalismo se forma progressivamente a partir das cidades, do comércio de longa distância e da economia-mundo. Marx, na leitura apresentada, enfatiza as rupturas estruturais ligadas à generalização da mercadoria, às revoluções políticas e à industrialização.
Maria da Conceição Tavares considera o capitalismo apenas um sistema industrial?
Não. Ela afirma que formas mercantis, industriais e financeiras coexistem. Contudo, considera o capital industrial decisivo por revolucionar a técnica, o processo de trabalho e a relação entre seres humanos e máquinas.
Como a aula explica a hegemonia britânica?
A hegemonia britânica é explicada pela articulação entre comércio, finanças, poder militar, dominação colonial, padrão ouro e imposição de uma divisão internacional do trabalho que organizou centros e periferias.
Qual é a crítica da aula aos modelos liberais de mercado?
A crítica é que modelos de concorrência pura e equilíbrio ignoram instituições, Estados, monopólios, mudanças do dinheiro e conflitos históricos; por isso, podem se tornar formulações ideológicas sem capacidade explicativa.
Como o Brasil aparece na análise?
O Brasil é apresentado como país periférico de origem colonial e industrialização tardia, que condensou rapidamente processos históricos vividos de forma mais longa pelas potências centrais.
Por que valores são importantes para a hegemonia?
Segundo a aula, armas, dinheiro, técnica e comércio não bastam. Uma potência se torna hegemônica quando também consegue difundir e legitimar seu sistema de valores, seu direito e sua visão de mundo.

