Estado e luta de classes: partido e poder político | Maria da Conceição Tavares
Maria da Conceição Tavares discute Estado e luta de classes como problemas inseparáveis da estratégia política. Partindo do New Deal de Franklin D. Roosevelt, ela argumenta que uma liderança democrática apoiada por burocracia competente pode reformar o capitalismo e ampliar direitos sem recorrer ao fascismo. A aula critica a tradição marxista que reduz o Estado a aparelho de dominação a ser destruído e sustenta que a esquerda precisa aprender a governar, administrar instituições, construir alianças e considerar a correlação de forças. Ao tratar do Brasil e das grandes metrópoles periféricas, Tavares afirma que as classes persistem, mas que a sociedade de massas torna insuficiente uma política baseada apenas em identidades de classe. No fim, defende a universidade como lugar de memória e razão crítica para compreender a realidade histórica.
Quem é Maria da Conceição Tavares?
Economista, escritora, matemática e política
Maria da Conceição Tavares foi economista, escritora, matemática e política luso-brasileira, reconhecida por suas contribuições ao estudo do desenvolvimento econômico e da industrialização brasileira. Foi professora da Unicamp e da UFRJ e deputada federal pelo Rio de Janeiro.
Ver perfil completo →Vocabulário para compreensão
New Deal
Conjunto de reformas econômicas e sociais implementadas nos Estados Unidos durante a Grande Depressão. É apresentado como exemplo de programa reformista conduzido por liderança democrática, burocracia estatal e coalizões políticas.
Partido de classe
Partido que organiza politicamente interesses ligados a uma classe social determinada. Na fala, a luta de classes só se converte plenamente em luta política quando encontra essa forma de organização partidária.
Burocracia estatal
Conjunto de funcionários, órgãos e capacidades administrativas permanentes do Estado. A conversa enfatiza que governar exige lidar com essa burocracia e orientá-la estrategicamente.
Hegemonia
Predomínio de uma visão de mundo ou direção social capaz de obter adesão para além da força direta. É tratada como dimensão cultural importante, mas insuficiente para resolver os problemas práticos de governar e administrar.
Economicismo
Redução da análise política e social aos interesses e mecanismos econômicos. A crítica apresentada sustenta que o marxismo não poderia permanecer apenas nesse registro, deixando de discutir política e democratização.
Bonapartismo
Forma de poder político em que o Estado e uma liderança parecem elevar-se acima das classes em conflito, buscando arbitrá-las. O termo é citado em referência a análises históricas das lutas de classes na França.
Vanguardismo
Concepção segundo a qual uma minoria politicamente avançada pode agir em nome de uma classe ou das massas. Surge criticamente associada à ideia de uma vanguarda que fala pelo proletariado e assume o poder.
Ditadura do proletariado
Expressão marxista para um período de poder político da classe trabalhadora após a derrubada da burguesia. Na conversa, ela é questionada em conexão com a supressão de classes e com o problema não resolvido do Estado.
Socialismo real
Nome dado às experiências históricas de Estados que se declararam socialistas, especialmente sob influência soviética. É mencionado para discutir repressão interna, terror de Estado e os limites dessas experiências.
Terror de Estado
Uso sistemático da coerção estatal para reprimir, prender ou eliminar opositores. Aparece na referência à eliminação de críticas internas, aos processos políticos e ao envio de dissidentes para a Sibéria.
Principais ideias
Para Tavares, o conflito de classes existe no capitalismo, mas ganha forma política quando encontra organização partidária, estratégia e disputa efetiva pelo poder.
A professora critica a ideia de que basta destruir ou tomar o Estado: quem chega ao governo precisa lidar com burocracia, aparelhos públicos, alianças e coerção.
O New Deal é apresentado como um caso de liderança eleita que usou uma burocracia estratégica para reorganizar a economia, enfrentar a crise e ampliar proteção social.
A construção de hegemonia é importante, mas não substitui o problema prático de administrar serviços, orçamento, burocracia e instituições estatais.
Experiências social-democratas mostram que vencer eleições com programas socialistas não elimina as restrições impostas por alianças, Estado organizado e forças burguesas.
Nas metrópoles contemporâneas, a posição de classe continua relevante, mas as formas de organização e identificação passam também por bairros, corporações, migrações e outros vínculos.
A universidade não oferece soluções mágicas: seu papel é fornecer instrumentos históricos e analíticos para que as pessoas compreendam o mundo em que vivem.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências
FILOSOFIAcapa em atualização
As duas táticas da social-democracia na revolução democrática
Vladimir Lenin
Mencionado ao tratar da formulação de Lenin em 1905 e do problema da revolução na Rússia.
FILOSOFIAcapa em atualização
Manifesto Comunista
Karl Marx e Friedrich Engels
A professora recomenda a leitura para discutir conquistas históricas da classe trabalhadora.
FILOSOFIAcapa em atualização
Visões do Brasil
Curso mencionado pela professora como continuação futura da reflexão sobre a formação histórica brasileira.

O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Karl Marx
Ajuda a aprofundar a relação entre classes, Estado, representação política e bonapartismo, problemas diretamente debatidos na aula.

Cadernos do Cárcere
Antonio Gramsci
Amplia a discussão sobre hegemonia, sociedade civil, Estado e os limites do economicismo presentes na exposição.
FILOSOFIAcapa em atualização
Economia e Sociedade
Max Weber
É uma referência para as questões de dominação, burocracia, classes e poder que estruturam parte da aula.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Grande Transformação
Karl Polanyi
Oferece uma leitura complementar sobre crise capitalista, proteção social e reorganização estatal no período do New Deal.

Formação Econômica do Brasil
Celso Furtado
Complementa a análise de capitalismo periférico, desenvolvimento desigual e especificidades históricas brasileiras.
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Trechos marcantes
Maria da Conceição Tavares — “Nós, esquerda, não tratamos da questão do Estado como um espaço democrático.”
Maria da Conceição Tavares — “Você toma o Estado por guerra civil, por assalto, tem que governar e tá fodido.”
Ao discutir as experiências socialistas, Tavares lembra que, no Chile de Salvador Allende, parte da esquerda ainda debatia se deveria reformar ou destruir o Estado enquanto o conflito se agravava. Ela contrapõe esse impasse à necessidade de discutir democratização e governo, tema pelo qual cita Gramsci.
Maria da Conceição Tavares — “Nós estamos numa crise de consciência crítica e de capacidade de ver os problemas reais em sua dolorosa complexidade.”
Maria da Conceição Tavares — “Nós não conseguimos sequer formular perguntas.”
Antes da frase, Tavares cita um dado sobre os Estados Unidos: em uma década, 12 milhões de migrantes entraram no país, enquanto o 1% mais rico teria ficado com 90% do incremento de renda. Ela contrasta esse quadro com a reflexão intensa de intelectuais alemães entre o fim do século XIX e o começo do XX.
Maria da Conceição Tavares — “Universidades é um aparelho de transmissão de conhecimento, de preferência, e da razão crítica.”
Maria da Conceição Tavares — “Serve para esclarecer e usar o seu instrumental analítico para entender o teu tempo e o teu espaço.”
Depois de defender que o mundo não pode ser interpretado por esquemas simples, Tavares diz aos alunos que eles podem discordar dela, mas precisam considerar os elementos históricos e analíticos estudados. A resposta vem no fim de uma aula marcada por embates diretos com a turma.
Maria da Conceição Tavares — “Com que direito algum deles, e eu em particular, falaríamos em nome do povo?”
Maria da Conceição Tavares — “Há um abismo entre eu e o povo, e por mais que meu coração sangre pelo povo, aí é complicado.”
A pergunta surge após Tavares afirmar que os pobres têm poucos porta-vozes e que os ricos possuem acesso direto ao poder. Ela relaciona esse abismo a desigualdades que ultrapassam a renda e menciona, no caso dos Estados Unidos, a entrada de 12 milhões de migrantes em uma década e a concentração de 90% do incremento de renda no 1% mais rico.
Maria da Conceição Tavares — “A sociedade de classes continua existindo.”
Maria da Conceição Tavares — “É impraticável usar hoje, na sociedade contemporânea de massas, uma bandeira de luta política de classe.”
Tavares afirma que as massas são estruturadas também por bairros, corporações, tribos e outras formas particulares de vínculo. Em seguida, cita o movimento operário do ABC que levou Lula à Presidência como exemplo de conflito de classe mobilizado politicamente por um sentimento geral de injustiça, e não apenas por uma palavra de ordem classista.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é a crítica de Maria da Conceição Tavares à visão marxista do Estado?
Ela critica a redução do Estado a mero aparelho de dominação a ser destruído. Para a professora, essa visão deixou em segundo plano o problema decisivo de governar, administrar instituições e disputar democraticamente os aparelhos estatais.
Por que o New Deal é importante na aula?
O New Deal aparece como exemplo de reforma democrática do Estado em contexto de crise. Tavares destaca a combinação de liderança política, burocracia estratégica, coalizão social e políticas de proteção econômica e social.
O que significa dizer que a luta de classes só vira luta política com partido de classe?
Significa que conflitos econômicos e sociais não se convertem sozinhos em disputa pelo poder. É necessária organização política capaz de articular interesses, formular estratégia e atuar sobre o Estado.
Maria da Conceição Tavares afirma que as classes sociais acabaram?
Não. Ela sustenta que as classes continuam existindo e que a desigualdade pode ser ainda mais intensa. Sua tese é que, em sociedades de massas, uma política fundada apenas em bandeiras classistas tradicionais se torna menos praticável.
Como a aula interpreta os limites da social-democracia?
A professora mostra que partidos social-democratas, mesmo eleitos com programas socialistas, enfrentam restrições de alianças, burocracias, sindicatos, classes dominantes e correlação de forças que limitam sua ação.
Para que serve a universidade segundo a aula?
A universidade serve para transmitir conhecimento, preservar memória e formar razão crítica. Seu papel é oferecer instrumentos analíticos para compreender o próprio tempo e espaço, não impor soluções prontas.

