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A Mercadoria e o Estado como Forças Motrizes da História | Maria da Conceição Tavares

Maria da Conceição Tavares examina Estado e mercadoria como forças estruturantes da história moderna, contrapondo o liberalismo de Smith, Ricardo e os jusnaturalistas às críticas de Hegel, Marx e Polanyi. A aula argumenta que a ordem liberal, fundada em vida, propriedade, contrato e interesses individuais, não explica nem resolve a devastação produzida pela expansão da sociedade mercantil. Para a palestrante, Marx revelou a potência universalizante da mercadoria, mas subestimou a autonomia do político; Hegel, por sua vez, oferece instrumentos para pensar o Estado, o direito e a nação como espaços concretos de objetivação da razão e de luta social. A experiência europeia entre 1870 e 1890 é apresentada como evidência de que a sociedade precisou recorrer ao Estado e aos direitos sociais para se proteger do mercado autorregulado.

01:46:32•Estado
PALESTRANTE PRINCIPAL

Quem é Maria da Conceição Tavares?

Economista, escritora, matemática e política

Maria da Conceição Tavares foi economista, escritora, matemática e política luso-brasileira, reconhecida por suas contribuições ao estudo do desenvolvimento econômico e da industrialização brasileira. Foi professora da Unicamp e da UFRJ e deputada federal pelo Rio de Janeiro.

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TERMOS ESSENCIAIS

Vocabulário para compreensão

Estado de natureza

Condição hipotética de insegurança e conflito, anterior à ordem jurídica estável. Na fala, descreve uma situação em que vida e propriedade não estão garantidas.

Contrato social

Acordo teórico pelo qual indivíduos aceitariam submeter-se a uma autoridade comum para formar a ordem política. A exposição discute-o como fundamento clássico da legitimidade e da obrigação de obedecer.

Direito natural

Conjunto de direitos considerados inerentes aos seres humanos, independentemente das leis vigentes. Na tradição discutida, vida e propriedade aparecem como seus direitos fundamentais.

Estado civil

Condição em que os indivíduos vivem sob leis e autoridade pública, em contraste com o estado de natureza. É apresentado como resposta à insegurança e à necessidade de preservar paz, vida e propriedade.

Razão instrumental

Uso calculador da razão orientado por utilidade, interesse e meios eficazes para determinados fins. A fala a associa à moral utilitária e à racionalidade econômica moderna.

Razão crítica

Exercício da razão que busca ultrapassar as aparências para revelar estruturas subjacentes e criticá-las. É atribuída tanto à leitura hegeliana quanto à marxista da história e da sociedade.

Razão substantiva

Ideia de razão voltada a fins e valores coletivos, e não apenas ao cálculo de utilidades. É contraposta à razão instrumental na discussão sobre liberdade, direito e vida social.

Moral utilitária

Concepção segundo a qual o bem é identificado ao interesse e à maximização de utilidades. Na fala, ela caracteriza parte da filosofia moral ligada ao pensamento econômico liberal.

Mão invisível

Imagem segundo a qual a concorrência e os interesses privados poderiam coordenar espontaneamente a vida econômica. A exposição questiona essa imagem ao enfatizar seus efeitos sociais destrutivos e a necessidade de regulação.

Trabalho alienado

Trabalho no qual o trabalhador se vê separado do sentido, do produto e do controle de sua própria atividade. É mencionado na crítica marxista ao trabalho transformado em mercadoria.

SÍNTESE DA CONVERSA

Principais ideias

Estado e mercadoria são universais da modernidade

A palestrante sustenta que tanto a generalização da mercadoria quanto a generalização de direitos e formas estatais continuam organizando a vida social contemporânea.

A sociedade mercantil não é uma simples soma de indivíduos

Contra o individualismo liberal e o paradigma de Robinson Crusoé, a aula afirma que o indivíduo é produto de relações sociais, materiais e políticas.

O mercado autorregulado produz desproteção social

A conversão de trabalho, terra e dinheiro em mercadorias gera efeitos destrutivos que tornam necessária uma reação coletiva e estatal.

Marx desvela a dominação da mercadoria, mas reduz o político

A leitura apresentada reconhece a força da crítica marxiana ao capital, porém critica a tendência de tratar o Estado como superestrutura ou epifenômeno.

Hegel permite pensar o direito como processo histórico

Para a palestrante, Hegel não deve ser reduzido a apologista do Estado prussiano: seu pensamento mostra que códigos jurídicos e instituições podem incorporar conquistas da liberdade.

A proteção social foi uma resposta histórica concreta

Leis sociais, saúde pública, direitos trabalhistas e organização coletiva são apresentados como respostas práticas surgidas na Europa diante dos danos sociais do mercado.

O Estado nacional é espaço concreto de disputa

A aula defende que cidadania, direitos e vontade política se realizam em espaços nacionais concretos, não em um internacionalismo abstrato do dinheiro.

Capítulos do vídeo

Livros, cursos e referências

Citado no vídeo · Livro

O Manifesto Comunista

Karl Marx e Friedrich Engels

A palestrante comenta que diversas reivindicações presentes no texto, como voto universal e regulação da jornada de trabalho, já haviam se tornado direitos.

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Citado no vídeo · Livro

O que é o Iluminismo?

Immanuel Kant

O ensaio de 1784 é citado para discutir a liberdade de fazer uso público da razão e a exigência de obediência.

Capa de Robinson Crusoé
Citado no vídeo · Livro

Robinson Crusoé

Daniel Defoe

A obra é evocada criticamente como símbolo do indivíduo isolado usado em teorias da sociedade burguesa.

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A Grande Transformação

Karl Polanyi

Fundamenta a leitura da reação social e estatal aos efeitos destrutivos do mercado autorregulado, eixo central da aula.

Capa de O Capital
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O Capital

Karl Marx

A crítica à mercadoria, ao trabalho abstrato, à alienação e à universalização do capital estrutura a leitura de Marx apresentada pela palestrante.

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Princípios da Filosofia do Direito

G. W. F. Hegel

É central para aprofundar os temas de Estado, sociedade civil, eticidade, direito e razão objetiva discutidos na exposição.

Capa de Leviatã
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Leviatã

Thomas Hobbes

Ajuda a contextualizar as referências ao estado de natureza, à soberania, à obediência e à fundação do poder político.

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Trechos marcantes

Maria da Conceição Tavares — “Parece que continua a ideia que pensar é altamente subversivo.”

Maria da Conceição Tavares — “Eu já fui em cana por causa disso.”

Ela relata que estudava filosofia em Portugal e diz que, na República e na ditadura, o livre pensamento não era bem aceito. Aos 18 anos, conta que quase foi presa enquanto fazia um seminário de Platão; depois afirma ter sido presa por pensar criticamente e observa que esse direito é dos mais recorrentemente violados.

Maria da Conceição Tavares — “O direito público como um direito de regular as coisas e os homens para que eles não sejam destruídos pela mão invisível.”

Maria da Conceição Tavares — “Ali ficou visível que a mão regula porcaria nenhuma.”

Ela situa a reação social entre 1870 e 1880, quando os efeitos da Revolução Industrial, da mercantilização e da expansão do Império Britânico se tornaram, em suas palavras, “arrasadores”. A resposta incluiu leis sociais, direito do trabalho, contratos coletivos, associação e sindicatos.

Maria da Conceição Tavares — “Pensem o que quiserem. Na verdade, como diria hoje o nosso filósofo de botequim: livre pensar é só pensar, contanto que obedeça.”

Maria da Conceição Tavares — “O direito à desobediência civil, isto é, ao não cumprimento das leis por injustas, não é reconhecido.”

Ao citar Kant, Maquiavel e Hobbes, ela ironiza uma liberdade reduzida à opinião: pode-se pensar e falar, desde que se obedeça. Em contraste, apresenta Marx e Hegel como autores que não tomam a obediência como princípio.

Maria da Conceição Tavares — “Se fosse só um idealismo, dizia ele, se fosse só um idealismo, este Estado não tinha o poder convocatório de mandar que morram por ele.”

Maria da Conceição Tavares — “Não houve nenhum internacionalismo de nenhuma classe, nem a burguesia nem o proletariado, que resistissem a este chamado.”

Ao discutir Hegel, ela afirma que o poder convocatório do Estado atua “para o bem e para o mal”, “para a guerra e para a paz”. Fala também de sua condição de portuguesa e internacionalista e diz que não lhe foi pedido morrer nem por Portugal, que “há muito tempo não faz guerras”, nem pelo Brasil, que ela diz também nunca ter feito nenhuma.

Maria da Conceição Tavares — “Os fundamentos filosóficos são comuns: a ideia de que o indivíduo é um produto social.”

Maria da Conceição Tavares — “O indivíduo Robinson Crusoé, nem pensar.”

Ao aproximar Hegel e Marx, ela recusa a figura do indivíduo autossuficiente. Em Marx, destaca as relações sociais de produção e de mercadorias; em Hegel, as relações com poder, leis, códigos e vontade política.
ARTIGO SOBRE O VÍDEO

Resumo completo

Nesta aula, Maria da Conceição Tavares propõe uma leitura de longa duração da modernidade a partir de duas categorias que considera incontornáveis: Estado e mercadoria. A exposição começa em tom circunstancial e político, associando uma crise de governabilidade à imagem do estado de natureza. Quando o Estado não consegue assegurar condições mínimas de segurança, vida e propriedade, reaparecem o medo, a violência e a imprevisibilidade que as teorias contratualistas buscavam superar. A palestrante situa seu argumento contra a tradição liberal e utilitarista. Para ela, a filosofia moral que associa o bem ao interesse individual e imagina o bem comum como resultado da coordenação de interesses privados não basta para compreender a sociedade capitalista. Smith, Malthus, Ricardo e os jusnaturalistas são lidos no contexto de uma ruptura historicamente progressista contra privilégios feudais, direito divino e poder aristocrático. Contudo, a liberdade e a propriedade, inicialmente formuladas como direitos emancipatórios, tornam-se insuficientes diante da sociedade mercantil que transforma trabalho, terra e dinheiro em mercadorias. Marx entra na aula como o grande crítico dessa universalização da mercadoria. A palestrante reconhece a potência de sua análise: o capital submete relações formalmente livres de contrato a formas profundas de exploração, violência e alienação. Mas ela também problematiza sua teoria do Estado. Ao tratar o político como epifenômeno, aparência ou superestrutura, Marx tenderia a deixar em segundo plano o Estado como arena efetiva de vontade política, luta social e disputa por direitos. Para Tavares, a mercadoria é um universal real, mas o Estado também o é. Hegel é recuperado justamente como pensador capaz de atribuir centralidade ao direito, à sociedade civil, à eticidade e ao Estado. A palestrante rejeita a imagem simplificada de Hegel como mero defensor do Estado prussiano. Seu argumento enfatiza que, em Hegel, a razão precisa se objetivar em instituições e códigos jurídicos; liberdade não é apenas opinião individual, mas conquista que se corporifica historicamente. A razão crítica, compartilhada de modos distintos por Hegel e Marx, permite negar as aparências e revelar estruturas de poder, produção e submissão. A aula dedica atenção especial ao contrato social e à obrigação política. Hobbes é valorizado por reconhecer que o poder se funda a si mesmo, enquanto a tradição liberal aparece marcada pelo esforço de legitimar o Estado a partir de pactos e direitos naturais. Nessa tradição, os direitos básicos são vida e propriedade; a obrigação de obedecer depende de o Estado preservar ordem e paz. Tavares mostra as ambiguidades dessa herança: o mesmo princípio que protege a vida pode justificar violência estatal em nome da ordem e da propriedade. Ao discutir Kant, a palestrante explora a ambivalência da liberdade iluminista. A defesa do uso público da razão representa uma conquista decisiva, pois pensar e criticar foram práticas perseguidas durante longos períodos históricos. Ainda assim, ela ressalta o limite da fórmula segundo a qual se pode pensar e criticar livremente desde que se obedeça. A desobediência civil, lembra, só ganha relevância política mais clara no século XX, em resposta a experiências como fascismo, colonialismo e guerras. A própria referência à sua experiência sob a ditadura portuguesa reforça que o livre pensamento permanece uma liberdade vulnerável. Com Karl Polanyi, a aula desloca-se da crítica teórica para a história concreta. Entre 1870 e 1890, diferentes sociedades europeias adotaram leis de segurança social, políticas de saúde pública, regulações do trabalho, direitos de associação e mecanismos de intervenção estatal. Tavares interpreta esse movimento como resposta prática ao caráter destrutivo do mercado autorregulado. A defesa social não teria sido simples resultado de uma conspiração antiliberal ou de uma teoria específica, mas efeito da necessidade histórica criada pela expansão da mercadoria e da Revolução Industrial. É nesse sentido que ela afirma que a mão invisível se tornou visível: o mercado não regula adequadamente as condições de reprodução da sociedade. Na parte final, a palestrante aproxima Hegel e Marx pela crítica ao indivíduo isolado. Ambos recusariam o paradigma de Robinson Crusoé e afirmariam que o ser humano é social e histórico. A diferença é que Marx privilegia as relações sociais de produção, enquanto Hegel enfatiza relações de direito, poder, vontade política e reconhecimento. Para ambos, a história é contraditória e se move por negações; não há harmonia espontânea nem soma automática das felicidades particulares. Por fim, Tavares defende a importância do Estado nacional. Sem negar as patologias do nacionalismo, ela sustenta que a nação é o espaço concreto em que a razão política, a cidadania e a luta por direitos se realizam. O internacionalismo abstrato, argumenta, funciona muito melhor para a mercadoria, o dinheiro e os interesses financeiros do que para os povos submetidos. A força histórica do Estado nacional é demonstrada, inclusive, por sua capacidade de convocar cidadãos para a guerra. A conclusão não celebra o nacionalismo de modo acrítico, mas insiste que uma teoria política precisa explicar por que Estado, povo e nação seguem tendo eficácia material, simbólica e institucional na história moderna.

Perguntas sobre esta conversa

Qual é a relação entre Estado e mercadoria na aula de Maria da Conceição Tavares?

A aula trata Estado e mercadoria como universais da modernidade. A mercadoria organiza relações sociais por meio do capital e do mercado, enquanto o Estado organiza poder, direito e disputas pela proteção social.

Como a aula diferencia Hegel e Marx?

Hegel é apresentado como pensador da razão, do direito e do Estado como espaço de objetivação histórica da liberdade. Marx é apresentado como crítico da mercadoria, do capital e das relações de classe, mas também como alguém que reduz o Estado a expressão da dominação social.

Por que Karl Polanyi é importante para o argumento?

Polanyi oferece a chave para compreender as leis sociais e a intervenção estatal como defesa da sociedade diante dos efeitos destrutivos do mercado autorregulado.

O que a palestrante critica na ideia de mão invisível?

Ela critica a noção de que interesses privados produziriam espontaneamente bem comum, argumentando que a expansão do mercado gerou desproteção e exigiu regulação pública concreta.

Por que o Estado nacional é defendido na aula?

A palestrante sustenta que a nação é o espaço histórico concreto em que cidadania, direitos, conflito político e razão pública podem se materializar, em oposição a um internacionalismo abstrato ligado ao dinheiro e à mercadoria.

O que significa dizer que o indivíduo é um produto social?

Significa rejeitar a imagem do indivíduo isolado e autossuficiente. Para a leitura de Hegel e Marx apresentada na aula, os indivíduos se constituem em relações sociais, políticas, jurídicas e produtivas.

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