Leandro Karnal, Clóvis de Barros e Mario Sergio Cortella - Encontro inédito
Em uma live comemorativa pelos dois anos do canal, Leandro Karnal conversa com Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho sobre os desafios de comunicar ideias no ambiente digital, os riscos da descontextualização de falas e a autoria intelectual. O diálogo percorre a possibilidade de uma vida sem Deus, a ética no Brasil contemporâneo, a diferença entre solitude e solidão, a singularidade dos afetos, a memória, a raiva diante da injustiça e o combate à desinformação. Entre humor, referências filosóficas e homenagens mútuas, os três defendem a dúvida, a responsabilidade pública e uma vida que não se reduza à utilidade ou à vitória em disputas.

Quem é Clóvis de Barros Filho?
Professor, escritor e palestrante, com atuação em ética, filosofia e comunicação.
Clóvis de Barros Filho é professor, escritor e palestrante brasileiro. É bacharel em Jornalismo e Direito, mestre em Ciência Política, doutor em Direito e em Ciências da Comunicação, além de livre-docente pela ECA-USP.
Ver perfil completo →Vocabulário para compreensão
Autoria
Relação entre uma obra, fala ou ideia e quem a produz e responde por ela. Na conversa, aparece no debate sobre trechos de palestras compartilhados sem autorização ou sem identificação adequada.
Enunciador
Quem formula e emite um enunciado ou discurso. É usado para explicar que toda fala integra uma rede anterior de ideias, na qual também somos destinatários de outros discursos.
Enunciatário
Aquele a quem um enunciado é dirigido ou que o recebe. O termo surge junto de “enunciador” para mostrar que quem fala também foi antes ouvinte e leitor de muitas ideias.
Hermenêutica fracionada
Interpretação feita a partir de fragmentos isolados, retirados de seu contexto. A expressão é empregada para descrever como falas públicas podem ser recortadas e ganhar sentidos diferentes do pretendido.
Autonomia moral
Capacidade de orientar a própria conduta por princípios que se decide respeitar livremente. É apresentada como condição da consciência moral e de uma vida considerada decente.
Pretensão de universalidade
Característica de um princípio que, embora assumido por alguém, pretende valer para todos em situações equivalentes. Surge no exemplo de não criar regras diferentes para cada consumidor conforme conveniências particulares.
Princípios de conduta
Diretrizes gerais que orientam como agir para proteger valores considerados essenciais. Na conversa, aparecem como mediação entre valores coletivos e normas legais.
Eremitismo
Prática de afastamento do convívio social, frequentemente associada à vida religiosa e contemplativa. É mencionado como uma forma intencional de recolhimento, distinta do abandono que produz solidão dolorosa.
Paixão triste
Afeto que diminui ou entristece a potência de viver, em referência à linguagem de Espinosa. A raiva é caracterizada assim, embora possa também impulsionar reações e transformações diante da injustiça.
Amor fati
Expressão latina que significa amor ao destino ou aceitação afirmativa da realidade tal como ela é. É debatida como uma atitude difícil diante de mundos percebidos como injustos, agressivos ou lesivos.
Principais ideias
Cortella considera os meios digitais uma extensão da sala de aula, porém ressalta que recortes e republicações devem preservar autoria, contexto e respeito ao trabalho intelectual.
Clóvis relata que falas mutiladas e interpretações distorcidas podem afetar reputações, mostrando que a imagem social é continuamente construída por discursos alheios.
Para Clóvis, valores compartilhados sustentam princípios e normas; a crescente centralidade da ética revela tanto uma crise moral quanto uma busca coletiva por convivência justa.
Cortella distingue a solitude escolhida e potencialmente formativa da solidão associada ao abandono e ao sofrimento. Clóvis acrescenta que a singularidade dos afetos torna a solidão uma condição existencial.
Clóvis chama a raiva de paixão triste, mas sustenta que a indignação diante de mundos injustos pode impulsionar transformações, desde que não produza condutas eticamente condenáveis.
Cortella destaca anonimato e má intenção na circulação de falsidades. Clóvis amplia a crítica: numa cultura funcional, verdade e mentira tendem a ser julgadas apenas por seus efeitos estratégicos.
No encerramento, Clóvis celebra a amizade e o encontro como momentos cujo valor não depende de utilidade posterior, contrapondo-os a uma vida inteiramente funcional.
Capítulos do vídeo
Livros, cursos e referências
FILOSOFIAcapa em atualização
A Condição Humana
Hannah Arendt
Karnal cita a obra ao indicar Hannah Arendt como uma de suas referências centrais.
FILOSOFIAcapa em atualização
Amor nos Tempos do Cólera
Gabriel García Márquez
Clóvis usa a leitura do romance como exemplo de experiência que se gostaria de prolongar.
FILOSOFIAcapa em atualização
Aprender a Viver
Luc Ferry
Clóvis elogia o livro como exemplo da competência de Luc Ferry para explicar filosofia a públicos amplos.
FILOSOFIAcapa em atualização
Crer ou não crer
Cortella menciona o livro ao tratar de debates sobre fé e possibilidade de uma vida sem Deus.
FILOSOFIAcapa em atualização
Discurso do Método
René Descartes
Cortella conta que este foi o primeiro livro que comprou ao se mudar para São Paulo e associa a obra à dúvida metódica.
FILOSOFIAcapa em atualização
Kant: a paixão pela razão
Mario Sergio Cortella
Cortella menciona seu primeiro livro, afirmando que o material permanece disponível em e-book.

Meditações
René Descartes
Cortella cita a obra junto ao Discurso do Método ao explicar sua aproximação com o pensamento cartesiano.

Reinações de Narizinho
Monteiro Lobato
Cortella cita a obra ao apresentar Monteiro Lobato como sua principal referência literária brasileira.
FILOSOFIAcapa em atualização
Tesão de Viver
Karnal apresenta o livro durante o sorteio de obras aos espectadores.

Ética
Baruch Spinoza
Ajuda a aprofundar a linguagem dos afetos, das paixões tristes e da potência mobilizada por Clóvis.

Ética a Nicômaco
Aristóteles
A discussão sobre ética como investigação da boa convivência e da vida humana dialoga diretamente com a tradição aristotélica.

O Mito de Sísifo
Albert Camus
Dialoga com a pergunta sobre sentido, a possibilidade de viver sem Deus e a necessidade de enfrentar um mundo difícil.
FILOSOFIAcapa em atualização
A Sociedade do Cansaço
Byung-Chul Han
Oferece uma leitura contemporânea sobre isolamento, desempenho e esvaziamento da experiência, assuntos próximos da live.
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Trechos marcantes
Clóvis de Barros Filho — “A raiva é uma paixão triste.”
Clóvis de Barros Filho — “Diante dos quais a indignação é mais do que previsível, é quase um imperativo.”
A resposta vem de uma pergunta sobre como administrar a raiva diante de corrupção, egoísmo e falta de empatia. Clóvis contrapõe a dor da raiva à existência de mundos que descreve como indigestos, agressivos, lesivos e injustos.
Clóvis de Barros Filho — “O encontro aqui foi uma oportunidade da vida valer por ela mesma.”
Clóvis de Barros Filho — “Houve aqui um momento de felicidade genuína que não precisa de mais nada.”
Ao encerrar a celebração de dois anos do canal, Clóvis diz que amizade, respeito e admiração tornam o encontro significativo. Ele o chama de feliz justamente em sua “mais estrita inutilidade”, em contraste com uma vida avaliada apenas por finalidades futuras.
Mario Sergio Cortella — “Estar sozinho não significa ser solitário.”
Mario Sergio Cortella — “Eu gosto de estar só, mas não gosto de ser solitário.”
A discussão ocorre após a menção a 144 dias de distanciamento. Cortella traz também sua experiência de ter passado três anos em um convento da ordem carmelitana descalça, o que dá peso à defesa de um afastamento escolhido e parcial.
Leandro Karnal — “Publicando ou não publicando, você será mal-interpretado.”
Leandro Karnal — “Eu sou sempre atacado pelo que as pessoas acham que eu disse.”
Antes da resposta, Clóvis relata o choque de ver falas mutiladas e invertidas em seu sentido, além da impotência diante de avalanches de manifestações que podem comprometer a reputação de alguém ligado à USP. A pandemia também o levou a migrar, tardiamente, para formatos digitais, pois suas palestras presenciais sustentavam seu escritório e sua família.
Clóvis de Barros Filho — “Depois que você come todinha com a colher, você ainda fica passando o dedo.”
Clóvis de Barros Filho — “É um desejo que aquele momento não acabe.”
Depois de dizer que um encontro feliz é aquele que não se quer encerrar, Clóvis compara essa sensação a aulas, filmes, livros, novelas e, por fim, a uma lata de doce de leite de Viçosa já vazia. O humor reforça a ideia sem abandonar o afeto do encerramento.
Resumo completo
Perguntas sobre esta conversa
Qual é a diferença entre solitude, solidão e isolamento segundo a conversa?
Solitude é a capacidade de estar só de modo intencional e potencialmente fecundo. Solidão é uma percepção interna que pode envolver sofrimento e abandono. Isolamento é uma condição circunstancial, como a imposta pela pandemia, que não determina por si só a experiência subjetiva.
Como Clóvis de Barros Filho diferencia moral e ética?
Ele apresenta a moral como ligada à consciência autônoma e à adesão individual a princípios. A ética surge como elaboração coletiva de valores, princípios de conduta e normas voltadas à proteção da convivência.
O que os participantes dizem sobre a autoria de conteúdos na internet?
Cortella defende que falas e ideias fazem parte de um trabalho intelectual que deve ser atribuído e contextualizado. Clóvis reconhece a dimensão coletiva das ideias, mas critica a mutilação de falas que inverte seus sentidos e prejudica reputações.
Como a conversa interpreta a raiva diante da injustiça?
Clóvis chama a raiva de paixão triste, mas não propõe suprimi-la. Para ele, a indignação diante de realidades lesivas pode ser necessária para a transformação, desde que não produza condutas eticamente condenáveis.
Qual é a crítica à razão instrumental feita por Clóvis?
A razão instrumental avalia tudo apenas como meio para um objetivo posterior. Clóvis argumenta que essa lógica esvazia o valor próprio da vida, da educação, da verdade e das relações, reduzindo o discurso a uma arma para vencer disputas.
Como combater fake news segundo Mario Sergio Cortella?
Cortella destaca a necessidade de autoria identificável, responsabilidade sobre a intenção e resistência a quem usa a liberdade de expressão para falsificar, manipular ou cancelar outras vozes.

